As magrelas do sr. Leandro

Texto de Trajano de Moraes e fotos de Gustavo Stephan

Estamos numa pequena ladeira em São Gonçalo. Ao transpor o discreto portão bege, um mundo diferente se insinua. Um amplo galpão guarda uma inédita coleção. Meia centena de bicicletas motorizadas usadas como transporte na Europa e em outros países, inclusive o Brasil, nos tempos de escassez de combustíveis durante e após a Segunda Guerra Mundial. Tão logo a situação se normalizou, as pessoas voltaram aos carros, ônibus e caminhões. E aquela frota caiu no esquecimento.

Não para Leandro Franco, 83 anos, português de Alcobaça. Ele começou a reunir os pequenos motores que moviam as bicicletas. Era mecânico. Trabalhava numa autorizada Opel e Ducati em Lisboa. Já gostava de motos e até competia em Portugal. Em 1958, com 23 anos, desembarcou no Rio, trazendo vários motores. Aqui, trabalhou nas oficinas da Mesbla, em Botafogo, no Rio, e na de Niterói. E começou a montar em casa o acervo que hoje inunda todos os cantos do galpão em São Gonçalo. Já então na companhia do irmão, Antônio Franco, 75 anos, também mecânico, mas de gigantescos motores de navio.

Com o passar do tempo, começou a colecionar todos os modelos de motonetas, lambretas e vespas vendidas no Brasil. Sem esquecer algumas preciosidades. Como uma moto Triumph inglesa de 1912, uma Peugeot francesa de 1925 e duas Zundapp alemães de 1934, usadas pelos nazistas na Segunda Guerra. Uma delas, com sidecar, estrelou o filme “Olga”. Em tempo: todas funcionam assim que são acionadas por Franco.

É dele também uma pequena coleção de automóveis antigos, com destaque para os Citroën: um DS 19 de 1957, um Ami 6 de 1967, um Citroën Maserati de 1972, com seu enorme motor V12, e um 2CV de 1973. Aí estão alguns exemplos dessas raridades.

Leandro Franco com a bicicleta Império na qual foi montado o motor de quatro tempos e 50cc, originalmente feito pela Siata, e que a Ducati italiana começou a fabricar em 1946, dando-lhe o nome de Cucciolo. Este motor, observa Leandro, está na origem das motos Ducati, famosas também por sua participação no campeonato mundial de motociclismo, a Fórmula 1 em duas rodas. Em dois anos, foram fabricados cerca de 100 mil Cucciolos para motorizar bicicletas.

Motor Cucciolo montado numa bicicleta inglesa Hermes, de 1948. Não só os motores funcionam, como também os acessórios. O farol deste modelo está ativo e não há o tradicional dínamo. A energia é produzida pelo próprio motor.

Motor Mosquito, de 1952, montado numa bike Calói Campeoníssima de 1950. O motor, de origem italiana, foi feito no Brasil pela Garelli. Foi o pioneiro no país.

Bicicleta Hermes, inglesa, de 1952, equipada com motor Gidiello feito no Brasil pela Fundição Bugre. Note, no quadro, a alavanca de marchas.

Este foi o último motor Ducatti a 4 tempos para bicicletas, de 1955. Está montado num chassi português Vilar. Tem três marchas acionadas a pedal.

Leandro e o único motor Diesel do mundo para bikes. Um Lohmann alemão de 1951, dois tempos, apenas 18cc, 0,8 hp. Está montado numa bicicleta brasileira Centrum, de 1950, precursora da Monark.

Todos os modelos exibem etiquetas com marca, características, ano de fabricação da bicicleta e do motor.

Detalhe da primeira motoneta Gullivette fabricada no Brasil, de 1955, com motor Lavalette, francês. Iniciativa do empreendedor polonês Leon Herzog.

O funcionamento do farol da Hermes/Cucciolo, de 1948.

Leandro exibe a bicicleta com curioso sistema de tração que, não importa se você pedale para frente ou para trás, ela sempre andará para a frente. Mas, ao pedalar para trás, engrena uma reduzida. Ou seja: tem duas marchas.

A moto Triumph de 1912 de 150cc da coleção de Leandro Franco. É dar a partida e ela funciona de imediato. Atrás, o Standard 8 inglês de 1948, um dos carros de sua coleção.

Detalhe do motor Gidiello feito no Brasil pela Fundição Bugre (953).

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Credits:

Fotos de Gustavo Stephan e texto de Trajano de Moraes

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