Projeto Didático em História cARLOS aRAÚJO

Ficha de trabalho

Antecedentes da imprensa: a xilogravura

A xilogravura, ou seja, a gravura sobre madeira, constituiu a primeira solução técnica encontrada para a reprodução rápida de textos sobre papel. Na verdade, era um processo conhecido desde há muito, usado desde a Antiguidade para a impressão de tecidos. Consistia em talhar um bloco de madeira de modo a que nele ficasse gravado um desenho em relevo, sobre o qual se aplicava tinta, pressionando-se depois sobre um tecido ou, como se começou a fazer desde finais do séc. XIV, sobre uma folha de papel. No fundo, é exatamente o mesmo sistema usado nos carimbos que ainda hoje utilizamos.

Com as xilogravuras podiam-se reproduzir em grande quantidade gravuras iguais. As primeiras a serem fabricadas foram cartas de jogar (fig. 1) e imagens piedosas (fig. 2), algo que pode parecer antagónico, mas se explica quer pelo tipo de produtos que são, muito semelhantes na sua produção, quer pela grande procura que tinham.

Figura 1- Cartas de jogar francesas xilogravadas (séc.xv)
Figura. 2 – Xilogravura com a representação da Anunciação e da Natividade (início do séc. XV)

Com o correr do tempo e a difusão desta técnica, começaram a fazer livrinhos inteiramente xilogravados, cujas folhas eram coladas umas às outras, verso contra verso. Exigiam um grande trabalho, pois as letras tinham de ser todas desenhadas e gravadas em madeira de forma invertida, para que ficassem corretas depois da impressão feita. Foram muitos os textos que circularam impressos desta forma, em especial nos Países Baixos e na Alemanha.

A xilogravura conheceu um forte desenvolvimento, dando origem a verdadeiras obras de arte, e não desapareceu com o advento da imprensa, mantendo-se com um papel fundamental, durante largo tempo, na ilustração do livro impresso.

As primeiras tentativas de impressão com caracteres móveis

A impressão já existia na China desde havia muitos séculos, percorrendo um caminho semelhante ao da xilogravura. Ali, porém, não se tinha dado seguimento à ideia que Johann Gutenberg veio a desenvolver no séc. XV, ou seja, a criação de caracteres móveis que se podiam juntar à vontade para formar as palavras desejadas, depois sendo de novo desfeito o texto e podendo reutilizar-se os caracteres. A complexidade da grafia chinesa não tornava essa inovação prática e continuou a usar-se, aí, a técnica de imprimir chapas de Metal contendo todo o texto que se pretendia gravar.

A grande inovação de Gutenberg, ourives de profissão, habitante da cidade de Mogúncia (Mainz), na Alemanha, por meados do séc. XV, foi criar caracteres móveis. Para isso de muito lhe valeram os seus conhecimentos como ourives, que sabia modelar, trabalhar e gravar os metais, fundi-los e criar objetos iguais a partir dos moldes feitos. Estes conhecimentos técnicos só se tornaram uma realidade no seu tempo, e esse é um dos motivos que explicam que a imprensa não tenha sido criada mais cedo. Por outro lado, era necessário que houvesse um sistema que permitisse imprimir as folhas: adaptou-se o sistema de prensa que já existia para os lagares. E era precisa também uma tinta que pudesse ser aplicada tanto nas superfícies metálicas como no papel: no séc. XV, foi criada a tinta de óleo.

Eis, pois, reunidas as condições para a imprensa ser inventada e bem-sucedida, como vimos, com Johann Gutenberg.

Johann Gutenberg (c-1400-1468
Uma oficina de impressor no séc. XVI (xilogravura)

Arquitetura e a construção da imagem do Rei

Logo que subiu ao trono, D. Manuel entregou-se à reforma do Estado, estabelecendo uma forte centralização e tornando o paço da Ribeira, e seus anexos, o coração de toda a máquina administrativa do Reino e do nascente Império de além mar. A legislação geral e local, as ordens religiosas e as militares, os cargos palatinos, os forais, a própria caligrafia, tudo foi revisto na perspetiva de modernização de Portugal. Continuava ao nível da política interna o que foi começado por D. João II e dava também continuidade e até um novo impulso à expansão ultramarina iniciada pelo Infante D. Henrique. Foi como herdeiro de ambos que se apresentou aos Portugueses e ao Mundo, mas foi além.

D. Manuel assumiu-se como o César da Época Moderna, com a missão de expandir a fé verdadeira. A ideia de Império, domínio sobre vários territórios do Mundo conhecido e do ignoto , como fizeram Alexandre e Augusto, era um propósito firme e, a dado momento, claramente assumido como uma realidade indesmentível, disso é prova a designação que escolheu para adornar o seu nome, repetida mil e mil vezes nos documentos da sua Chancelaria e nas páginas dos cronistas: “Rei de Portugal e dos Algarves de aquém e além-mar em África”, como D. Afonso V, mas também “ Senhor da Guiné” e, sobretudo, do Comércio e das Conquistas e Navegações da Arábia, Pérsia e Índia”. Em 1514, na embaixada que enviou á Roma de Leão X, mostrou-se à cidade e ao Mundo como principal agente da expansão da fé em Cristo, o braço terreno do Espírito Santo e o defensor do Papado, um novo Constantino, mas agora verdadeiramente universal.

Diplomacia, festa e arte, aliadas ao poder militar e à riqueza que afluía aos cofres do Estado e às bolsas de tantos que participavam na aventura ultramarina, marcaram e caracterizavam a obra de um rei venturoso a todas os títulos, um rei predestinado, cujo nome, D. Manuel ou Emanuel, ou seja, como Cristo, “Deus em nós”, tinha sido um indicio. Milagroso, providencial foi também o seu nascimento em Alcochete, com D. Beatriz a dar à luz, em quase agonia e já sem esperança, quando à porta do modesto palácio passava a procissão de corpo de Deus. A rainha, e assim viria a ser chamada a duquesa de Beja, viveria várias décadas mais.

Outro Indicio claro era a sua esfera, dada pelo rei D. João II ao então ainda só duque de Beja, a esfera armilar, a sphera ou spera, a esperança da Humanidade numa nova redenção, a Idade do Ouro por que a Cristandade, tanto, ansiava.

No fim de Quatrocentos, e particularmente no século XVI, o poder régio era visto como graça ou dádiva divina, como o seu preceptor, Diogo Lopes Rebelo, defendeu em 1496, no seu De Republica Gubernanda per Regem. Novo vigário de Cristo na Terra, seu representante por vontade expressa em tanto presságio, D. Manuel I tinha que se afastar do comum dos mortais, criar uma distância que o aproximava dos potentados orientais, em que se pressentia mais do que se via. Porém, explorando bem esta aura de mistério, deixava-se ver em ocasiões excecionais, e regularmente na longa varanda do seu palácio Lisboeta, construída para isso mesmo, como um verdadeiro palco cénico nas cerimónias palatinas, incluindo as festas mais ou menos privadas e o teatro, ou à frente dos imensos séquitos com que se fazia acompanhar nas suas viagens a Castela e Aragão, a Santiago de Compostela ou, simplesmente, entre Lisboa e os seus inúmeros palácios.

Se intermediava entre os súbditos e Deus, nada mais natural do que zelar pelo culto, pela dignidade e decoro, pela sua magnificência, impondo-se aos olhos de todos como o mais fiel dos crentes. Real ou efabulada, a sua piedade tê-lo-á levado a patrocinar edifícios religiosos por todo o País e pelas conquistas, tornando-se o principal padroeiro. Dos fantásticos e esplendorosos mosteiros e conventos, como os de Santa Cruz de Coimbra, dos Jerónimos de Belém e de Cristo de Tomar, às mais modestas igrejas paroquiais, as armas e a empresa do rei, estavam sempre visíveis. Era o monarca ausente tornado presente através das marcas obsessivas na arquitetura e na sua decoração, nos retábulos pintados, na marcenaria das armações de cadeirais e nas tapeçarias que tornavam os muros frios mais confortáveis.

A representação do monarca tornou-se uma verdadeira obsessão para si e para os seus ideólogos, mostrando-se a sua imagem de culto mais idealizada do que real, em todo o tipo de obras de arte, da pintura à tapeçaria, passando pelas esculturas, pelas Iluminaduras e gravaduras.

Quando a vera efígie não tinha cabimento, representavam-se as suas armas, a esfera armilar e a cruz da ordem de cristo, que desde cedo assimilou. Não nos esqueçamos que, pela bula Etsi Suscepti de 9 de janeiro de 1443, o papa Eugénio IV colocou sob o padroado de Ordem de Cristo todas as terras da Expansão, as descobertas e as que viessem a ser conhecidas, e que D. Manuel já havia sido elevado a seu administrador em 1484.

A própria tentativa de canonização de D. Afonso Henrique e de D. Isabel de Aragão, de quem descendia em linha direta, insere-se nesta necessidade de afirmação entre os seus pares coroados europeus, que quase todos eles com santos nas respetivas famílias. Em relação a Afonso Henriques, e apesar dos fantásticos túmulos que patrocinou para ele e para seu filho, D. Sancho I, em Santa Cruz de Coimbra, nada logrou, mais do que fama e o acentuar dos milagres lendários, mas já conseguiu pelo menos fazer beatificar a Rainha Santa, remodelando em seguida e enriquecendo desmesuradamente o mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Era a sua própria glória que na deles procurava.

No mesmo sentido, elevou o infante D. Henrique à santidade, o seu avô adotivo, já que o Navegador fizera do infante D. Fernando, o duque de Beja, seu herdeiro, dando-lhe lugar no mainel do mais vistoso portal do mosteiro dos Jerónimos, a obra emblemática do seu reinado. Aí está a sua estátua como guerreiro e defensor da fé, o novo apóstolo, o primeiro entre todos os outros, evangélicos, colocados ordenadamente à sua esquerda e à sua direita.

TEXTO ADAPTADO

Pedro Dias, Arquitetura Manuelina, Arte Portuguesa, Da Pré-História ao século XX, 2009, Fubu Editores, SA.

Inquisição Portuguesa

A Inquisição Portuguesa mantinha os seus presos em condições bárbaras. As Celas do «santo» tribunal de Lisboa eram húmidas, frias, sufocantes e imundas. Os presos esperavam frequentemente durante anos até que fosse pronunciada a sentença. De uma lista de presos do século XVII, constatava-se que 57 detidos passaram no cárcere mais de 4 anos (9 deles encarcerados 7 anos, outros 6 permaneceram na prisão entre 10 a 11 anos, um esteve no calabouço 13 anos e outro detido 14 anos).

Uma norma do «santo» Tribunal datada de 1552 determinava que o herege arrependido só podia ser considerado bom unicamente quando revela os seus cúmplices e denuncia os seus parentes próximos e amigos particularmente queridos. Se o preso se mostrava recalcitrante, os inquisidores arrancavam-lhe as confissões por intermédio de ameaças e torturas.

Em Lisboa, os auto-de-fé realizavam-se no Terreiro do paço, onde se erguiam tribunais com capacidade para cerca de 3000 espectadores. Num estrado especial sentavam-se os fidalgos da corte, autoridades eclesiásticas e inquisidores, em frente os hereges. Depois de um te deum e do sermão apropriado eram lidas as sentenças, que impunham penas diferentes, incluindo a entrega ao braço secular para o «digno castigo» (suplicio da fogueira).

A incineração dos hereges efetuava-se na ribeira, logo a seguir ao auto-de-fé. Aos que desejavam morrer catolicamente era lhes feito uma «mercê» especial: eram garrotados antes se consumirem em chamas. Os renegados da fé católica eram entregues vivos ao fogo, em fogueiras de 4 metros de Altura. Por cima da fogueira colocavam um estrado com um pelourinho no centro. Pela escada subiam para ali o condenado, o carrasco e 2 monges jesuítas que procuravam fazer «regressar a razão» o herege, enquanto o carrasco o atava ao pelourinho. Logo a escolta se retirava.

No meio dos gritos furibundos da multidão fanática, excitada pelos clérigos, o carrasco e os seus ajudantes encostavam à cabeça do condenado, varas com estopa a arder nas pontas. A gigantesca fogueira, por vezes, demorava 2 horas a extinguir-se, assando literalmente a vítima. Durante a execução, os fanáticos que rodeavam a fogueira arremessavam pedras ao infeliz, procurando partir-lhe a cabeça (…)

Texto retirado, da página 313, do livro de Iossif Grigulévitch, História da Inquisição.

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carlos araujo
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Created with images by Alan Kleina - "TicTac."

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