Conhecer Lisboa pelos olhos dos locais

Eram já 10 horas da manhã quando saí do metro na Baixa-Chiado e subi a rua em direção ao Largo Camões. O meu receio em não conseguir encontrar o guia dissipou- se logo. Por debaixo da estátua a Luís de Camões estava já um grupo, maior do que eu esperava, a ouvir o nosso guia Miguel. Quem não soubesse da existência deste “free walking tour” rapidamente conseguia descobrir o que fazia um grupo com nacionalidades tão diversas como israelitas, australianos, polacos, canadianos, alemães e ingleses sentados a ouvir um português contar a história de Portugal. Pela restante praça estavam outros membros da Lisbon Chill Out Tour com cartazes a aliciar turistas e não só.

É com um poema de Fernando Pessoa retirado da “Mensagem” (traduzido depois para inglês) que Miguel dá início ao tour. Enquanto aguardamos que outros curiosos se juntem ao nosso grupo, o nosso guia leva-nos por uma viagem histórica que vai desde a formação da península ibérica (sem esquecer o nosso herói Viriato) ao colapso do império romano, explica-nos como um “pirralho mimado que pedia à mãe um país” levou à formação de Portugal, faz uma breve passagem pelos períodos dos descobrimentos, da inquisição e do terramoto de 1755 e ainda refere a relação de rivalidade saudável com os “nuestros hermanos”.

Por esta altura a conversa já vai longa e é altura de começar a mostrar a cidade. A primeira paragem não ficou muito longe, foi só subir uma rua e estávamos já no Bairro Alto. Como não podia deixar de ser, o Bairro Alto é referido como o principal espaço de vida noturna da cidade, cujo aparecimento surgiu na altura da peste negra. Entre o subir e o descer das ruas, facilmente se percebe que Lisboa foi, de facto, construída por cima de sete colinas, que em cada canto oferecem vistas incríveis com enquadramentos perfeitos.

Chegados ao Chiado, sentamo-nos nas escadas em frente à igreja de São Roque onde Miguel nos avisa para prestarmos atenção aos detalhes da cidade. Como ele diz, “a arquitetura de

Lisboa é uma confusão deliciosa” e, de facto, por detrás dele está uma fila de prédios, cada um com a sua própria fachada.

A arquitetura da cidade complementa-se com a “anarquia dos candeeiros de rua”

É neste largo que Miguel alerta para um dos problemas sociais que a cidade de Lisboa enfrenta, as rendas baixíssimas dos idosos e, ao mesmo tempo, as elevadíssimas rendas praticadas no centro lisboeta. Como o nosso guia explica, as baixas rendas levam a que os proprietários não tenham capacidade para renovar as casas, acabando por deixá-las ao abandono ou vendê-las ao setor do turismo. O resultado é uma paisagem urbana de casas degradadas, hostels e hotéis.

É neste aspeto que as “free walking tours”, como as oferecidas pela Chill Out Tour, se distinguem das ditas “tours tradicionais”. Ao não se limitarem a contar a história do país e da cidade, passando apenas pelos já massificados principais pontos turísticos, mostram como vivem e pensam os habitantes da cidade, o que por vezes implica contar as histórias menos agradáveis que definem a cidade e o país.

Miguel define as pessoas que o acompanham nos tours como viajantes, por oposição aos turistas. Os primeiros escolhem um restaurante típico, enquanto os últimos comem numa multinacional; os turistas simplesmente vêm as primeiras três coisas que aparecem na pesquisa do Google e ficam tranquilas quando vêm algo que lhes é confortável e está em todo o lado; os turistas olham para as pessoas, ouvem as pessoas e sorriem para as pessoas, enquanto o turista anda pela cidade e olha apenas para as casas e edifícios bonitos.

Miguel explica como o terramoto de 1755 deixou a cidade de Lisboa em ruínas

A Chill Out Tour conta com oito guias, todos eles lisboetas e cada um nascido e criado na sua zona da cidade. Como resultado, cada guia oferece um tour único e personalizado e eles próprios admitem que não fazem dois tours iguais. Por vezes acontecem imprevistos e o caminho que tinham pensado tem que ser alterado na hora, e é aqui que entra o “desenrascanço” português, aliado ao facto de serem da cidade e conhecerem-na como a palma da sua mão. Outras vezes é a resposta e os interesses dos participantes que determina o caminho a seguir. Contudo, há sempre uma linha orientadora pela qual os guias se devem reger que passa por contar a história de Portugal e de Lisboa enquanto se vai passando pelos locais onde esta aconteceu.

Foi em frente às ruínas do convento do Carmo que Miguel nos transportou para o fatídico 1 de novembro de 1755, dia em que a cidade de Lisboa foi assolada pelo pior terramoto da nossa história. Foi um conjunto de condições como o facto de ser o Dia de Todos os Santos que levou a que a quase totalidade da população lisboeta estivesse na rua e tivesse acendido velas nas suas casas. Assim que se deu o terramoto os milhares de velas acendidas pela cidade deram início a um incêndio gigante, que levou os lisboetas a procurar refúgio no pior local possível, a Praça do Comércio, pois o terramoto deu origem a um maremoto que varreu as pessoas que se tinham abrigado junto ao rio.

“Sei que aprendi porque me sinto diferente, quando te sentes diferente é porque estás num processo de mudança a tentar compreender diferentes ideias e sentimentos” – Lawchaq (participante do tour)

Como diz o ditado popular “todos os males vêm por bem” e o terramoto de 1755 não foi exceção. Após esta desgraça surgiu a histórica figura do Marquês de Pombal e três séculos volvidos, os viajantes ainda puderam verificar com os seus próprios olhos a obra e a arquitetura que o Marquês deixou à cidade de Lisboa.

Passando uns séculos à frente e de novo de volta ao século XXI, já no bairro de Alfama, Miguel anuncia que tem uma surpresa para nós. Leva-nos para um recanto do bairro, diz-nos para fecharmos os olhos e ouvirmos. “Mas ouvir o quê? Não se ouve nada. Exato!” Para Miguel esta é uma das muitas pérolas escondidas de Lisboa, o facto de estarmos no coração de uma capital europeia sem ouvir o barulho do trânsito e podermos escutar as pessoas na sua lida diária, a cozinhar, a perguntar como estão, a estender a roupa.

Como explicou mais tarde, Miguel esforça-se por promover e praticar um turismo responsável, em que são cultivadas as boas relações com as pessoas do bairro e em que se ele recomenda determinada tasca ou café é porque conhece esse sítio e não porque é pago para o fazer. Esta é uma das três liberdades em que assenta a Chill Out Tour: da companhia (livres de obrigações para com museus, cafés, restaurantes, etc.), do turista (livre de abandonar o tour a qualquer momento e do preço (o tour é grátis e depende das gorjetas que cada um quiser oferecer).

Para terminar o tour, Miguel oferece um último tesouro de Lisboa, uma das suas vistas de cortar respiração:

REPORTAGEM DE CATARINA VILA NOVA

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