Do Carandaí ao Caparaó expedição científica nas serras de Minas Gerais

Texto Marcus Nadruz e Raul Ribeiro

Fotos Raul Ribeiro

O objetivo desse trabalho é mostrar o processo de coleta no campo e o conhecimento da família Araceae no estado de Minas Gerais. Esta família botânica é conhecida pelo grande número de espécies ornamentais e utilizada no paisagismo em diversas partes do mundo. Como uma maneira de organizar o trabalho de pesquisa, decidiu-se utilizar as Unidades de Conservação, num primeiro momento, para levantar os registros da família no estado. A partida foi do bairro Jardim Botânico, na cidade do Rio de Janeiro, em direção à cidade de Carandaí, Minas Gerais, no Campo das Vertentes, parte da Serra da Mantiqueira, onde fica o município a 1057 metros acima do nível do mar. A outra tarefa foi seguir para o Parque Nacional do Caparaó, no Alto Caparaó, localizado entre Minas Gerais e Espírito Santo, onde se encontra o Pico da Bandeira (terceiro mais alto do Brasil) e na divisa que separa os dois Estados.

Esse projeto faz parte da proposta de formação de recursos humanos em pós-graduação da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, liderado pela Dra. Livia Temponi. Os alunos de mestrado atuam numa determinada unidade de conservação (podendo ser estadual ou federal), onde realizam o levantamento de espécies da família Araceae. Paralelamente ao estudo deste grupo, são realizadas coletas de outras famílias botânicas, visando aumentar o conhecimento da flora de Minas Gerais, com registros fotográficos e informações de georreferenciamento (latitude, longitude e altitude).

A equipe é formada pelo Dr. Marcus Nadruz, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ); a Dra. Livia Temponi e a aluna de mestrado Mel Castro, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Cascavel - UNIOESTE e o fotógrafo Raul Ribeiro, também do JBRJ.

O estado de Minas Gerais é líder no desmatamento da Mata Atlântica no Brasil e hoje possui somente 10,3% do que restou desse bioma. Sendo assim, trabalhos de inventário botânico são de suma importância para conhecer o que ainda há de mata natural, a tempo de preservar as espécies que se encontram ameaçadas de extinção.

Uma pesquisa de inventário botânico, de qualquer área, começa pelo herbário. Mas o que é mesmo um herbário botânico? É uma coleção de plantas secas (herborizadas), denominadas exsicatas. Nela são encontrados dados de coletas anteriores do grupo objeto de estudo e da área em questão. Após levantamento, é possível ter uma ideia das espécies que estão sendo procuradas e onde elas foram coletadas no passado. Assim fica mais fácil retornar aos mesmos lugares para saber se as espécies ainda existem lá e também abranger outras localidades que ainda não têm registros desse grupo. Esse trabalho pode ser feito de forma presencial no próprio herbário ou pela internet, acessando a página da coleção e relacionando as informações necessárias, inclusive imagens das exsicatas.

Pesquisadoras vasculhando os arquivos no Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Ainda no herbário, começa uma avaliação dos espécimes arquivados com dados do sistema JABOT-JBRJ. Estão ali informações como o nome correto da espécie, família, hábitos, habitat , coletores, referências geográficas entre outras que serão utilizadas na expedição.

Pesquisa no sistema Jabot do JBRJ

Ao iniciar uma expedição, a equipe precisa separar alguns materiais utilizados para preservar os ramos após as coletas: jornais (onde os exemplares vegetais serão acondicionados), folhas de papelão (que ficarão intercaladas com os jornais, dando início ao processo de herborização do material no campo) e prensas de madeira que farão uma espécie de sanduíche dos jornais e papelões, amarrados com cordas e sacos plásticos para acondicionar o material vegetal que for coletado. Ainda, tesoura de poda, podão para coletas de árvores, GPS para anotações de latitude, longitude e altitude, máquina fotográfica para registrar imagens da localidade, da espécie vegetal como um todo e suas características menores.

Um dos principais objetivos desta expedição é encontrar uma espécie que foi coletada pela primeira vez em dezembro de 2006. Naquela época, o material vivo foi doado para a coleção de Araceae do JBRJ, porém morreu em cultivo. Desde então, tornou-se meta para o grupo de pesquisadores ir a localidade de ocorrência da espécie para uma nova coleta.

Na etiqueta do material depositado no herbário do JBRJ havia a seguinte pista para chegar a espécie: "Carandaí Pedra do Sino Hotel Fazenda”. Mas como chegar até lá? A resposta poderia estar com quem coletou o material. Também na mesma etiqueta estava o nome de "Nara Mota”. Depois de muita pesquisa a equipe encontrou Nara Mota, doutora em Biologia Vegetal pelo programa de pós-graduação em Biologia Vegetal no departamento de Botânica da Universidade Federal de Minas Gerais e que gentilmente mostrou o caminho para chegar até a espécie. Na área do Hotel Pedra do Sino está a “Trilha do Bugio", que leva ao interior de uma floresta habitada por um grande grupo de primatas que dá o nome à trilha. O som que eles emitem e que se ouve ao longe e que é belo e assustador. Até chegar à entrada da trilha, o caminho passa por uma chácara e pelo hotel fazenda, que são os proprietários das terras da reserva particular onde será feita a coleta.

(Se você der um clic nas fotos elas aumentam de tamanho)

O trajeto entre a chácara e a entrada da mata
Equipe na entrada da Trilha do Bugio
No quesito segurança, caneleira é um item quase obrigatório para evitar imprevistos com serpentes e outros bichos. Por isto entra na lista o kit de primeiros socorros
Preparo dos equipamentos
Trilha do Bugio

Depois de algum tempo de caminhada, para a surpresa da equipe, são encontrados os primeiros registros deste Anthurium. Uma belíssima espécie terrestre, de folhas brilhantes e com nervuras marcadas. Pelo fato da colega Nara Mota tê-lo encontrado pela primeira vez, a pesquisadora será homenageada com o batismo da planta. A espécie nova se chamará Anthurium narae.

GPS para marcar o local da coleta
Corte, etiquetagem e embalagem

Além da coleta do Anthurium, foram feitos registros de outros grupos botânicos que estavam em flor ou em fruto, além da indicação se são árvores, arbustos ou ervas.

Registro fotográfico
O aprendizado e a troca de conhecimento são constantes numa expedição de campo

A equipe segue para mais coletas. Os pesquisadores recebem encomendas para cultivo no Jardim Botânico.

Clique nas fotos

O resultado da coleta são outras espécies no período de florada.

Hora de voltar, preparar e embalar os espécimes coletados.

Ao final, todo o material foi fotografado, etiquetado com as principais informações coletadas no campo e catalogado na caderneta de coleta (onde se descrevem as principais características da planta, como localidade, formas e cores de cada parte), prensado e acondicionado na caçamba do veículo.
Catalogação, embalagem e prensagem
'sala de aula'

No dia seguinte o grupo saiu em direção ao Parque Nacional do Caparaó, localizado no município de Alto Caparaó, Minas Gerais. Antes uma paradinha para o almoço e um agradecimento ao casal Tobias e Therezinha que ofereceu a hospedagem e alimentação.

A equipe com os anfitriões Tobias e Therezinha

Parque Nacional do Caparaó MG

O Parque Nacional do Caparaó está localizado na Serra do Caparaó, divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, e é um dos destinos mais procurados pelos adeptos do montanhismo no Brasil". O PNC possui o terceiro ponto mais alto do país, o Pico da Bandeira, com 2892 m de altitude. O objetivo principal é encontrar duas espécies possíveis novas para a ciência e uma espécie rara de Anthurium, que só ocorrem na área da Unidade de Conservação.

A primeira parada é na localidade do Vale Verde, onde, logo num primeiro paredão, foram encontrados alguns exemplares da família Araceae, entre eles um Anthurium que já havia sido coletado em três ocasiões (julho e outubro de 2001 e junho de 2002). Esta espécie permaneceu como uma dúvida até o momento, porém, com esta nova coleta e pelas análises preliminares, está próxima de ser considerada como nova e endêmica dessa localidade. Assista ao vídeo.

Imediatamente o material coletado já entra em processo de análise e preparo para transporte.

Preparo para embalagem

A Dra. Lívia Temponi explica um dos procedimentos de análise da planta coletada

Espécimes que vão para o herbário do Jardim Botânico do Rio.

A equipe reúne o material coletado e entra para o Vale Verde, dentro do Parque Nacional do Caparaó

Entrada do Vale Verde

A localidade Vale Verde é extensa e foram percorridos mais alguns trechos na esperança de achar outras novidades. De fato, outros antúrios de espécies já conhecidas foram encontrados numa área cercada por grandes pedras. Para a coleta de um desses indivíduos foi preciso a utilização do podão, devido à altura onde a planta se encontrava.

Um trabalho em grupo com resultado

Fim do trabalho no Vale Verde, começa o deslocamento para o Tronqueira e o Vale Encantado que ficam próximos ao topo da montanha no Alto Caparaó.

Saída do Vale Verde

Esta será a parte mais elevada que a expedição alcançará: 2025 metros de altitude, para encontrar o Anthurium mourae (antúrio miúdo) coletado há 15 anos pelos pesquisadores M. Nadruz , D. Costa e L. Leoni. A estrada que leva ao Vale Encantado é cercada por uma vegetação de plantas com portes mais arbustivos e poucas árvores. Havia uma indicação de outra espécie “diferente" de antúrio, coletada na estrada que leva até a Tronqueira, ponto de partida para o Vale. O trajeto foi feito bem devagar, parando em alguns pontos para coletar alguns grupos que estavam floridos no caminho. Para cada coleta era feita a rotina de fotos e registros de GPS. Numa dessas paradas, a equipe encontrou uma mina de água saindo do barranco, com uma mata interessante por cima. Resolveram investigar e, para surpresa de todos, encontraram o “tal" antúrio e que é mais uma espécie nova para a botânica.

A alegria tomou conta da equipe e deixou todos com esperança de fechar com chave de ouro o dia, indo ao encontro do Anthurium mourae, espécie rara e endêmica do Parque, com somente cinco registros de coletas em aproximadamente 120 anos.

Equipe à procura do antúrio

A única pista que havia sobre o Anthurium mourae era de que crescia em vegetação bem perto do rio e entre bromélias. Então começou um trabalho investigativo em todos os locais de acesso até o rio e nas moitas que se desenvolviam ali à procura por bromélias, referência principal para encontrar a espécie. Foi percorridos alguns pontos do leito do rio, próximo à margem. Depois de um dia inteiro de procura, chegou-se a conclusão que será preciso outra expedição ao Vale Encantado.

Os dados provenientes desses registros são importantes para o conhecimento da flora do Parque Nacional do Caparaó. Muitas dessas espécies já foram coletadas anteriormente, outras não. Algumas podem ser registros novos para a área, talvez raras ou ameaçadas de extinção. Essas informações serão checadas nos laboratórios dos pesquisadores participantes da expedição e são extremamente importantes para reforçar o papel de uma unidade de conservação para a preservação da biodiversidade.

Antes de partir é preciso organizar o material coletado nas prensas, com as devidas anotações nas cadernetas de coletas. Material em álcool e em sílica, para estudos de DNA, também são separados e etiquetados. Vários registros fotográficos são realizados, mostrando a maneira como a planta se encontra na natureza, detalhes das suas partes vegetativas (caule, folhas) e das partes reprodutivas (flor e fruto).

Equipe:

Dr Marcus Nadruz

Dra Lívia Leoni

Mel Castro

Raul Ribeiro

Marcus, Mel, Lívia e Raul
Created By
Raul Ribeiro
Appreciate

Credits:

Raul Ribeiro

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