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Fraternidade Humana por Frei Fernando Ventura

E foi tarde, e foi manhã e foi o primeiro dia…

E assim começou a aventura de “ler” Deus e de “ler” a criação; de ler o mistério maior da própria existência, ela mesma, essa mesma a que fomos chamados, dentro do espaço e do tempo que nos ultrapassa, na imensidão do desconfinamento do multiverso de Deus, que nos toca procurar na pequenez do planeta que habitamos e na pequenez dos planetas que nos habitam, que nos “moram” e onde moramos, desafiados a ir mais longe, para além de nós, ao encontro do outro e, oxalá, ao encontro do totalmente outro que é Deus.

E foi tarde, e foi manhã e foi o primeiro dia…

E foi assim que outros tempos antes do nosso começaram a tentar explicar e procurar o sentido de estarmos aqui. Foi assim o primeiro dia de uma aventura de Deus que saiu de si ao encontro de nós, para que nós pudéssemos iniciar a viagem de regresso ao encontro de Deus.

Toda a aventura humana se joga neste “vaivém relacional”.

Agora, somos nós que aqui estamos. Agora, somos nós, queles a quem toca explicar os porquês e, sobretudo, os “para quês” e os “comos” de estar aqui.

Somos nós, neste nosso ser aqui e agora, pontos de chegada e pontos de partida. Somos nós aqueles que ouvem a voz da sarça, somos nós aqueles a quem Deus chama para um encontro pessoal, descalços para não pisar os sonhos, descalços, no reconhecimento da dignidade do nosso espaço de existir, no reconhecimento da sacralidade do espaço de Deus e no reconhecimento da dignidade e da sacralidade do espaço do outro.

Somos nós aqueles que, de novo, ouvem as duas perguntas de Deus, eternamente à espera de uma resposta convincente:

- Adão onde estás?

- Que fizeste do teu irmão?

Duas perguntas para as quais ainda não encontramos resposta; dois reptos a sermos gente com gente, para que mais gente seja gente, para que nunca ninguém deixe de ser pessoa.

O que está em causa, agora e sempre é a necessidade de passar do “eu ao nós”, “do eu solitário ao nós solidário”, não como um enfeite de uma qualquer campanha eleitoral feita à pressa, mas no esforço existencial de baixar do pedestal dos nossos egos solteiros de afetos, viúvos de emoções e divorciados de compromissos. Este abaixamento, é mais do que nunca a condição, neste tempo que passa, para conseguirmos vencer a pandemia do medo, do isolamento, do aparente sem sentido da história que passa, que assusta, que nos confina, que nos pode amarrar à sensação da impossibilidade de olhar para além do medo, para além de nós, em direção à esperança.

Não, não estamos condenados a ver o sol só refletido dos charcos! Juntos, em comunhão e comunidade, podemos vencer o medo, desconfinar a esperança, sempre que e quando o outro, o outro ao lado, for o irmão que comigo é história no tempo, a caminho da eternidade.

Somos muito maiores do que os nossos sonhos! Juntos, seremos sempre maiores que os nossos medos! Somos filhos de um Deus maior. Somos filhos de um Deus, que em Cristo se fez história, para que nós filhos/irmãos de uma criação que ainda não terminou, sejamos verdadeiramente herdeiros do sonho de um paraíso a construir, sem pecados originantes geradores de desigualdades, exclusões, mortes e abandonos, de silêncios cobardes e “politicamente corretos” alimentados pelo pensamento bacoco dominante que tudo lê em cartilhas de extremismos, entre extrema esquerda e extrema direita, quando a discussão terá que ser cada vez mais entre extrema corrupção e extrema pobreza.

E será tarde, e será manhã e será um novo dia…

Temos dois Franciscos a marcar o ritmo desta aventura de ser; o de Assis e o de Roma. O de Assis que grita a fraternidade universal de todas as criaturas; o de Assis que grita FRATELLI TUTTI, Todos Irmãos, na Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium) e na Alegria do Amor (Amoris Laetitia, ancorado na Luz da Fé (Lumen Fidei).

E será tarde, e será manhã e será um novo dia…

ps.: Além dos documentos papais sugiro a leitura da Carta do Chefe Índio Seattle ao Grande Chefe de Washington, Franklin Pearce (1895). “Um dia talvez sejamos irmãos”. https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/15806.html

Frei Fernando Ventura
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Paróquia Fafe
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