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De grão em grão: As agrocidades mineiras que produzem e se desenvolvem com o café O CAFÉ É O PRINCIPAL PRODUTO DA AGROPECUÁRIA EM MINAS GERAIS E CONTRIBUI PARA A ECONOMIA DE DIVERSAS CIDADES DO ESTADO

Guaxupé (MG) – Nos Estados Unidos, é breakfast, na Alemanha, frühstück. Só mesmo no Brasil, maior produtor mundial, é que o café passou a ser nome da primeira refeição do dia, o café da manhã. Mas a rotina diária de tomar o bom e velho cafezinho tem mudado nos últimos anos. A cada dia mais o número de cafeterias, bem como a apreciação pela bebida mais consumida no mundo têm aumentado no país. Nesse sentido, é indiscutível, que o café especial tomou conta do paladar dos brasileiros. O que poucos sabem é que, de grão em grão, o setor cafeeiro movimenta diversas cidades, gerando empregos e desenvolvendo a economia desses municípios.

Dados de uma pesquisa feita pela Euromonitor Internacional – maior empresa de pesquisa de alimentos do mundo – encomendada pela BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais) mostram que, de 2012 até 2017, o consumo de café especial no Brasil aumentou em 21%, ou seja, contabilizando 490 mil sacas e movimentando R$ 1,722 bilhão no varejo. No total, torrado, moído e solúvel, o consumo do país, no ano passado, totalizou 22 milhões de sacas de 60 kg, em uma curva crescente nos últimos anos, segundo levantamento da ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café).

Cafés especiais caíram no gosto dos brasileiros; consumo aumentou 21% de 2012 a 2017 | Foto: Jhonatas Simião

"Percebemos nos últimos anos um interesse maior pelo café no Brasil, com um reconhecimento importante pela qualidade. As pessoas vão para as cafeterias, compram cápsulas e usam em suas máquinas em casa. Esse é um hábito que já ocorre em outros países no mundo", disse Stella Gross, barista e coordenadora da Fran's Café, maior rede de cafeterias do Brasil, com mais de 100 lojas, e em atividade desde 1972. "Crescemos 22% de 2017 até outubro de 2018", pontua Gross, confirmando a expressiva adesão do consumidor aos diversos tipos de cafés. A rede utiliza apenas grãos nacionais.

Segundo a BSCA, esse crescimento no consumo é explicado pelo estímulo à produção e à capacitação de produtores, assim como a qualificação de baristas e, claro, o próprio desejo de consumidores. "A mudança de hábitos por qualidade de consumo não começa em casa, ela começa através das cafeterias, dos formadores de opinião, que são os baristas. Então são esses momentos de prazer que fazem com que as pessoas comecem a se interessar", explica Vanusia Nogueira, diretora executiva da BSCA, segurando um café na mão durante a Cup of Excellence 2018, em Guaxupé (MG).

Fran's Café é a maior rede de cafeterias em atividade no Brasil e possui mais de 100 lojas no país | Fotos: Jhonatas Simião

Ouça abaixo o depoimento de Camila Cunha, engenheira agrônoma, apaixonada por café e pelo ambiente das cafeterias:

O levantamento encomendado pela associação brasileira mostrou, ainda, uma evolução na produção de cafés especiais – acima de 80 pontos, segundo classificação da Associação Americana de Cafés Especiais – nos últimos anos no Brasil, em média 15%, saltando de 5,2 milhões de sacas, em 2015, para aproximadamente, 8,5 milhões em 2017. As variedades intituladas como "especiais" ganham cada vez mais relevância e devem aumentar sua representatividade, consideravelmente, até 2021. Cerca de 90% da produção do grão é destinada à exportação e 10% utilizada para o consumo interno.

A mudança de hábitos por qualidade de consumo não começa em casa, ela começa através das cafeterias – Vanusia Nogueira, diretora executiva da BSCA

Para atender à crescente demanda, do outro lado, estão as agrocidades, que se desenvolvem através da cultura e são responsáveis por fornecer o grão para o mercado interno e para o mundo. Nas estradas do estado de Minas Gerais, entre uma cidade e outra, o café está lá, seja na planície ou nas montanhas. São mais de 1,4 mil municípios produtores do grão em todo o Brasil e a maioria deles fica no estado mineiro. Mais de 80% dos estabelecimentos agrícolas no país são familiares, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A cidade de Guaxupé (MG), no Sul de Minas Gerais, tem pouco mais de 50 mil habitantes, mas é uma gigante quando se fala em café. Ela abriga a maior cooperativa do grão do mundo, a Cooxupé (Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé), em atividade desde o ano de 1932. São mais de 2 mil funcionários, 14 mil cooperados e um recebimento de 4,7 milhões de sacas na última safra, com 30 mil sacas consideradas especiais.

A cidade de Guaxupé (MG) abriga maior cooperativa de café do mundo | Fotos: Jhonatas Simião e Prefeitura de Guaxupé

"Desde o final do século XIX e início do século XX, o café tem sido um produto impulsionador do crescimento econômico do Sul de Minas Gerais e, principalmente, de Guaxupé e região, com divisas, geração de empregos e desenvolvimento em logística", afirma Mario Guilherme Ribeiro do Valle, presidente do Sindicato Rural do município. "Quando o café está bom, a cidade também está", pontua Valle em referência à importância do grão.

Na safra 2018, que, aliás, terminou a colheita nos últimos meses e está em processo de comercialização, mais de 50% da produção brasileira de café foi produzida em Minas Gerais e mais de 25% no Sul de Minas Gerais, principal região produtora do país, com produtividade média esperada de 32,85 sacas por hectare, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Nesta temporada, a região, inclusive, teve ganhos tanto de área e quanto de produtividade. Para o país, a estimativa, entre arábica e conilon, é de uma produção total de 59,9 milhões de sacas beneficiadas.

O CAFÉ TEM SIDO UM PRODUTO IMPULSIONADOR DO CRESCIMENTO ECONÔMICO DO SUL DE MINAS GERAIS E, PRINCIPALMENTE, DE GUAXUPÉ E REGIÃO – MARIO GUILHERME RIBEIRO DO VALLE, PRESIDENTE DO SINDICATO RURAL DO MUNICÍPIO

"Na agricultura, disparado, o café é o produto mais significativo para a economia de Guaxupé, com participação 10 vezes maior do que o segundo colocado [leite]", afirma Reinaldo Morais, pesquisador da Fundação João Pinheiro. No último levantamento do IBGE da Produção Agrícola Municipal, a cidade aparece como a 135ª maior produtora do país, com um PIB (Produto Interno Bruto), em 2015 – dado mais recente, de R$ 2.084.701.000,00 e per capita de mais de R$ 40 mil, inclusive, acima da média nacional. Os dados mostram como a agrocidade é base de processamento e recebimento de grãos de café de diversos outros municípios da região Sul de Minas.

Criada em 2009 e, posteriormente, integrada à Cooxupé, a SMC Specialty Coffees, empresa de cafés especiais da cooperativa, tem como objetivo encontrar os melhores mercados para comercializar cafés finos, especiais e certificados dos cooperados. "Além de elevar a renda do cooperado, quanto mais se souber que está pagando um preço, melhor para o café, mais produtores serão motivados a fazer os especiais", afirma Maria Dirceia Mendes, gerente da SMC. O Prima Qualitá em Grão, da Cooxupé, foi eleito um dos três melhores cafés de qualidade do Brasil pela ABIC neste ano.

A empresa, junto com a própria Cooxupé, foi anfitriã da etapa internacional do Cup of Excellence – Brasil 2018, realizado entre os dias 15 e 21 de outubro, em Guaxupé (MG). Nesse concurso, foram escolhidos os dois melhores cafés do Brasil, com grãos naturais (sistema de preparo em via seca), mais tradicional no país, e cerejas descascados/despolpados (preparados pelo sistema em via úmida) na safra de 2018. O produtor cooperado da Cooxupé, Sérgio dos Reis Oliveira, de São Pedro da União (MG), ficou com sua amostra em 30º lugar na categoria Naturals do concurso. Um feito importante, mas ele sequer imaginava a preciosidade que tinha em mãos, não fosse o trabalho da SMC.

"Produzo cafés que são de bebida boa, mas nem imaginava que eles poderiam ter uma nota tão alta (87,59 pontos), porque ele nem foi preparado especialmente para o concurso. Acredito que o clima ajudou muito. Agora que a porteira foi aberta, eu e meus irmãos precisamos buscar melhorar ainda mais a produção", diz Oliveira, que pretende participar de próximas edições do concurso com os lotes de sua propriedade familiar, o Sítio Córrego Grande, com cerca de 70 hectares plantados.

Da esquerda para a direita, Vanusia Nogueira, Carlos Paulino da Costa e Carlos Augusto Rodrigues de Melo, durante entrevista na Cup of Excellence, em Guaxupé (MG) | Fotos: Jhonatas Simião

"Existem regiões do Brasil de onde saem a maioria dos cafés campeões. Quanto a vegetação, você pode fertilizar, pode criar condições dela se desenvolver melhor no solo. Agora, o clima, você não consegue mudar, é aquilo que a natureza tem. Então, considero o clima um fator determinante para esses cafés especiais, especialmente em altitudes mais altas", destaca Carlos Paulino da Costa, presidente da Cooxupé.

Segundo Carlos Augusto Rodrigues de Melo, vice-presidente da cooperativa, são vários os fatores que devem ser levados em consideração para a produção de cafés especiais com altas notas. Ele destaca um tripé que o cafeicultor deve se atentar na produção desses tipos de grãos: propriedade, proprietário e produto. "Há 20 anos, éramos tidos como o país dos cafés normais e hoje isso mudou", pondera. "Com a oferta desse produto, melhoramos muito o consumo de café de qualidade no Brasil", afirma Melo.

Quase metade da produção de café do estado passa por cooperativas – Ronaldo Scucato, presidente do Sistema Ocemg

Somente no estado de Minas Gerais são mais de 50 cooperativas envolvidas com a cultura do café, com mais de 80 mil associados (51% do Ramo Agropecuário) e 7.162 empregados (46% dos empregados totais do setor), segundo dados do Sistema Ocemg. Em 2017, todas essas entidades produziram 11,2 milhões de sacas e arrecadaram R$ 6,04 bilhões com a venda do produto (33,8% da receita das 198 cooperativas agropecuárias do estado).

"Quase metade da produção de café do estado passa por cooperativas, que têm relevante participação no PIB mineiro. Temos muito orgulho do trabalho realizado pelas cooperativas em prol do desenvolvimento de Minas e do país", afirma Ronaldo Scucato, presidente do Sistema Ocemg.

A SMC, empresa de cafés especiais da Cooxupé, foi criada em 2009 para atender o mercado brasileiro | Foto: Jhonatas Simião

É verde e amarelo um dos melhores cafés do mundo

Saiu do Sítio Bom Jardim, em Patrocínio (MG), um dos cafés mais valorizados do mundo. Ganhador da categoria Pulped Naturals, no Cup of Excellence do ano passado, o lote do produtor Gabriel Nunes teve pontuação de 92,33 foi leiloado por US$ 17,22 mil a saca (R$ 55,5 mil no câmbio do período) – a média do commodity está em cerca de R$ 450,00. É o mesmo patamar de preço de cafés exóticos. Esse precioso grão, com Denominação de Origem do Cerrado Mineiro, foi dividido com compradores do Japão e Austrália e custa até R$ 100,00 a xícara.

Foi produzido no Sítio Bom Jardim, em Patrocínio (MG), o café mais caro do Brasil | Fotos: Divulgação/Nunes Coffee

"Cerca de 90% dos consumidores japoneses consideram o café brasileiro como o melhor do mundo, é isso que me motivou e que me motiva a comprar esses cafés", explica Kentaro Maruyama, degustador e comprador de parte do lote histórico. Maruyama esteve no concurso deste ano de 2018 da BSCA, em Guaxupé (MG) e deu nota de 99 pontos para um dos cafés, ele espera novas preciosidades para atender ao consumo dos japoneses.

O café brasileiro foi considerado o mais caro do mundo por cerca de dois, mas o recorde foi quebrado posteriormente, na Costa Rica. Ainda assim, ele é o mais valorizado da história do Brasil. "Patrocínio (MG) é a capital do café no mundo, tudo oscila com base nessa cultura aqui. Vender uma saca de café especial pelo preço que seria correspondente a mais de 120 sacas, com cerca de R$ 400, é uma enorme satisfação. Isso mudou a visão dos produtores", explica Osmar Pereira Nunes, presidente do Sindicato Rural da cidade e pai de Gabriel.

O Cerrado é conhecido pela quantidade de café produzido, mas a nossa conquista motivou outros produtores a fazerem também qualidade – Gabriel Nunes, cafeicultor campeão
Cafeicultor Gabriel Nunes e seu pai Osmar Nunes administram o Sítio Bom Jardim, em Patrocínio (MG) | Foto: Jhonatas Simião

Mais do que o reconhecimento financeiro, na visão de Nogueira, da BSCA, a valorização do café dos Nunes representa uma vitrine para seus próprios negócios e um incentivo para outros produtores. "O principal não é o preço que é vendido o café do concurso, mas sim a exposição que o cafeicultor faz do nome dele, da propriedade, da família, da história deles e do próprio país. Isso é importante para a safra dele e para a região como um todo", afirma.

O café bourbon amarelo dos Nunes é cultivado a 935 metros de altitude em terreiro suspenso, conhecido como "cama africana", para evitar a proliferação de fungos e bactérias, além de dispor de uma pós-colheita diferenciada. A Nunes Coffee é uma propriedade familiar de Gabriel Nunes com seu pai, Osmar Nunes, nela são cultivadas mais de 30 variedades de café em, aproximadamente, 400 hectares. Mais de 70% da produção por safra é focada em qualidade. O grande feito dos Nunes veio depois do filho estudar em Viçosa (MG) e aplicar no campo o que aprendeu.

"Quando voltei para a fazenda passei a investir na estrutura com foco na qualidade e na capacitação dos profissionais – cerca de 20 atualmente. Em três anos, conseguimos o feito de trazer o prêmio inédito para o Cerrado e já bater um recorde mundial no leilão. Isso é muito gratificante", afirma Nunes. O pai de Gabriel trabalha com café há 30 anos, mais do que a idade do próprio filho. O valor de R$ 55 mil, conquistado com o café mais valorizado da história do Brasil, foi quase utilizado integralmente em novos investimentos na propriedade.

Veja abaixo o depoimento de Gabriel Nunes, cafeicultor campeão de Patrocínio (MG), em que conta parte dos segredos da produção de seus cafés especiais:

O feito da família Nunes motivou os cafeicultores da região a investirem mais no nicho dos cafés especiais. "O Cerrado é conhecido pela quantidade de café produzido, mas a nossa conquista motivou outros produtores a fazerem também café de qualidade", afirma Nunes. A inspiração deu tão certo que no Cup of Excellence Brasil deste ano, um novo produtor da região conquistou o prêmio na categoria Naturals, com pontuação de 93,26.

"Esse café teve muito trabalho envolvido, muitas pessoas, histórias, perseverança, desafios, obstáculos, mas conseguimos. Com dedicação e pé na terra, provamos que é possível vencer", disse Ismael José de Andrade, cafeicultor da terceira geração da família, de Carmo do Paranaíba (MG), após receber o prêmio. O leilão dos cafés de via úmida ocorrerá no dia 29 de novembro, enquanto o de via seca será realizado em 5 de dezembro. Os National Winners, de ambas as categorias, serão ofertados entre 29 de novembro e 7 de dezembro.

Patrocínio (MG) é a maior cidade produtora de café do Brasil | Foto: ASCOM/Prefeitura de Patrocínio

O boom de qualidade no Cerrado Mineiro tem ajudado a movimentar ainda mais a região. Patrocínio (MG) é atualmente a maior cidade produtora de café do Brasil, com pouco menos de 1 milhão de sacas, segundo o IBGE. "Estima-se que a participação do café no PIB da cidade seja entre a 5% a 10% (R$ 108.027.300,00 - R$ 216.054.600,00), mas isso apenas na agricultura, excluindo a indústria e serviços com o produto. No PIB do agro, o café representa 70%. Um peso grande para economia da cidade", afirma Morais, da Fundação João Pinheiro. O PIB total da cidade é de R$ 2.160.546.000,00 e per capita de mais de R$ 20 mil.

"O café é o principal produto em Patrocínio (MG). Essa cultura tem inserção no sistema econômico da cidade, gerando emprego, renda e movimentando a economia local", afirma o assessor técnico da Comissão Nacional do Café da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), Maciel Silva. Osmar Nunes afirma que o café, inclusive, é muito utilizado como moeda de troca durante a safra. "A cidade é, basicamente, movimentada pelo café. Se ele está em baixa, o comércio também cai. É muito comum fazermos trocas por produtos para a fazenda", pontua o pai do cafeicultor campeão.

Os cafés do Cerrado Mineiro representam mais de 10% da produção total do Brasil na safra 2018, segundo estimativa da Conab. Houve, na última temporada, inclusive, um incremento de produção de mais de 90% e produtividade tem média de 36,8 scs/ha.

A procura pelos cafés dos Nunes tem sido alta. Quase todos os dias algum comprador ou interessado visita a propriedade da família para conhecer o segredo do café campeão. E eles, de antemão, já anunciam que não pensam em parar. "Nessa safra plantamos mais cafés e tivemos muitos lotes de qualidade e mais volume", afirma Nunes. A produção dobrou para até 14 mil sacas. Quem sabe, daqui mais alguns anos, os Nunes não possam colher mais um café para entrar para a história.

Infográficos: Hugo Gaudino/Notícias Agrícolas

Created By
Jhonatas Simião
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