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Desigualdade no Brasil é escolha política Para o economista irlandês Marc Morgan, os sucessivos governantes brasileiros optaram por não enfrentar o problema. Eles não criaram políticas que poderiam limitar a renda do topo da pirâmide e abriram mão um sistema tributário mais justo.

TaxMax selecionou reportagens, entrevistas e artigos que citaram os trabalhos de Marc Morgan sobre a desigualdade. O economista irlandês esteve no Brasil recentemente para participar de estudos com economistas do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Esse grupo pretende lançar, ainda em 2017, uma série sobre a desigualdade brasileira desde 1926.

Economista irlandês Marc Morgan no prédio do Ipea, em Brasília

'Desigualdade no Brasil é escolha política', diz o economista Marc Morgan

As medidas de ajuste fiscal do governo do presidente Michel Temer tendem a elevar ainda mais a desigualdade no Brasil, diz o economista irlandês Marc Morgan Milá, 26.

Em entrevista à Folha , ele afirma que a contenção dos gastos públicos afetará especialmente os mais pobres. As novas conclusões do economista estão provocando um debate sobre a realidade dos últimos 15 anos: a desigualdade no Brasil não caiu como se pensava até então.

Para ele, os sucessivos governantes brasileiros optaram por não enfrentar o problema, evitando políticas que poderiam limitar a renda do topo da pirâmide, como um sistema tributário mais justo.

"A história recente do Brasil nos leva a dizer que houve uma escolha política pela desigualdade."

Leia a íntegra da entrevista feita pelas repórteres Mariana Carneiro e Flavia Lima e publicada pela Folha em 24/9/15

Desigualdade de renda no Brasil não caiu entre 2001 e 2015, aponta estudo

A desigualdade de renda no Brasil não caiu entre 2001 e 2015 e permanece em níveis "chocantes", de acordo com um estudo feito pelo World Wealth and Income Database, instituto de pesquisa codirigido pelo economista Thomas Piketty, conhecido por seus estudos sobre desigualdade com a obra "O Capital no Século 21".

Segundo a pesquisa, os 10% mais ricos da população aumentaram sua fatia na renda nacional de 54% para 55%, enquanto os 50% mais pobres ampliaram sua participação de 11% para 12% no período. Esse crescimento foi feito às custas de uma queda da participação de dois pontos percentuais dos 40% que estão entre os dois extremos (de 34% para 32%).

O crescimento econômico observado no Brasil no período teve pouco impacto na redução da desigualdade porque foi capturado principalmente pelos 10% mais ricos, que ficaram com 61% da expansão observada no período. Já a metade mais pobre da população foi beneficiada com apenas 18% desses ganhos.

"Em resumo, a desigualdade total de renda no Brasil parece ser muito resiliente à mudança, ao menos no médio prazo, principalmente em razão da extrema concentração de capital e seus fluxos de renda", conclui o estudo.

O estudo do World Wealth and Income Database, assinado pelo economista Marc Morgan, vai na contramão de indicadores como o índice de Gini, que mostra a desigualdade, o qual indicou que houve uma melhora do cenário no Brasil, atribuída às políticas de redistribuição de renda dos governos do PT, como o Bolsa Família, e à política de valorização do salário mínimo, cujo valor real aumentou cerca de 50% no período.

Com base nesses indicadores, os governos Lula e Dilma defenderam que houve redução na desigualdade durante suas gestões –o que o estudo questiona.

Os resultados mais recentes estão em linha com os observados pelos pesquisadores Marcelo Medeiros, Pedro Souza e Fábio de Castro, da Universidade de Brasília, que identificaram uma estabilidade no nível de desigualdade entre 2006 e 2012.

Leia a reportagem completa de Fernanda Perrin e Natália Portinari na Folha.

“Reforma tributária é escolha óbvia para reduzir a desigualdade no Brasil”, diz Marc Morgan

Economista irlandês, autor de estudo recente sobre o Brasil, defende taxação de impostos crescente para quem ganha mais e um sistema mais simples e transparente

O economista irlandês Marc Morgan Milá durante passagem pelo Brasil, em setembro. Ele defende uma regulamentação sobre rendimentos financeiros para reduzir a desigualdade no país (Foto: Vitória Greve )

O Brasil perdeu a ilusão sobre seu sucesso na redução da desigualdade. Diferentemente do que se pensava até 2014, quando a base de dados se limitava às pesquisas domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o retrato mais recente indica um país com desigualdade quase estável e ainda muito acima do padrão encontrado nas democracias capitalistas. A partir dos dados do Imposto de Renda de Pessoas Físicas, tornados disponíveis pela Receita Federal, o diagnóstico ficou mais preciso, pois os rendimentos dos mais ricos, incluindo dados sobre patrimônio e aplicações financeiras, foram mais bem dimensionados. A partir desses números, ao menos três estudos recentes apontaram a resistência da desigualdade no Brasil: um do pesquisador e sociólogo Pedro Herculano Guimarães Ferreira de Souza, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um da Oxfam, organização não governamental britânica, e um do economista Marc Morgan, pesquisador na Escola de Economia de Paris. Quando fez o estudo, Morgan era orientado pelo economista francês Thomas Piketty, autor do best-seller O capital no século XXI e referência na compreensão da desigualdade.

O estudo de Morgan, mais recente, mostra que a participação na renda nacional (antes dos impostos e transferências) do 1% mais rico da população aumentou entre 2001 e 2015, de 25% para 27,8% – assim como a dos 10% mais ricos, com avanço de 54,3% para 55,3%. A metade inferior da pirâmide de renda também se apropriou de parte maior do bolo, de 11,3% para 12,3%. No meio, houve um recuo – de 34,4% para 32,2%. Conclusão: a camada intermediária pagou a conta dos ganhos dos mais ricos e dos mais pobres do país nos últimos anos.

O retrato atual faz do Brasil um dos países mais desiguais do mundo, concorrendo apenas com a África do Sul. Morgan integra a equipe do World Inequality Lab (Laboratório Mundial de Desigualdade), que lançará em dezembro o World inequality report 2018, um relatório sobre diversos países, incluindo o Brasil, durante conferência na Escola de Economia de Paris.

"Entre as opções para buscar uma sociedade mais equitativa, a reforma tributária é uma escolha óbvia. É preciso resolver o fato de os muito ricos terem uma carga tributária menor que os pobres. Isso deve trazer à tona [as discussões sobre] o Imposto de Renda da Pessoa Física e o imposto sobre herança e doação."

Leia a íntegra da entrevista na revista Época.

'O Brasil não é desigual por acidente'

Entrevista com Pedro Herculano de Souza

Novos dados sobre a persistente desigualdade social brasileira voltam a circular. O recente estudo de Marc Morgan, do World, Wealth & Income Database, cruza as declarações de renda dos brasileiros nos últimos 15 anos com pesquisas domiciliares e de renda nacionais. O pesquisador, vinculado ao grupo do economista francês Thomas Piketty, demonstra que ao contrário do que se pensava, a desigualdade no Brasil cresceu no período. Segundo ele, o 1% mais rico concentra 28% da renda nacional – um crescimento de 3% desde 2001.

Pedro Herculano de Souza, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

O contraste com as pesquisas domiciliares é grande: se dependesse só dos dados da Pnad, feita pelo IBGE, o número seria 11% da renda. Também os 10% mais ricos aumentaram sua participação na renda: foram de 55% para 61%. E os 50% mais pobres subiram de 11% para 12%. Quem perdeu então? Segundo Morgan, enquanto as elites e os mais pobres conseguiram ganhos, os 40% no meio declinaram sua participação de 34% para 32%. Esses achados não são novidade para quem leu os últimos estudos produzidos aqui mesmo no Brasil, por pesquisadores como Rodrigo Orair, Sergio Gobetti, Evilásio Salvador, Marcelo Medeiros e Fábio Castro. O entrevistado da semana faz parte desse time. Pedro Herculano de Souza, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), analisou em 2016 a mais longa série histórica do imposto de renda já publicada, que vai de 1926 a 2013. O período em que fomos menos desiguais foi entre 1942 e 1963, quando o 1% mais rico chegou a abocanhar ‘apenas’ 17% da renda total. Isso foi uma exceção, já que ao longo desses anos o centésimo mais rico deteve entre 20% e 25% de todos os rendimentos brasileiros fatia que, desde 2006, está na casa dos 23% – e agora, segundo Marc Morgan, pode ter chegado a 28%.

Leia a íntegra da entrevista publicada no site da Fiocruz.

Mulher em Guariba (PI), primeira cidade a receber o Bolsa Família

Laura Carvalho: Brasil não redistribuiu renda do topo para a base da pirâmide

Muitos analistas entenderam que o estudo de Marc Morgan, publicado na semana passada pelo World Wealth Income Database, instituto dirigido por Thomas Piketty, refuta a tese de que houve queda na desigualdade de renda no Brasil nas últimas décadas.

O estudo mostra, por exemplo, que, nos cinco anos que antecederam a crise financeira internacional de 2007-08, o 0,1% mais rico da população se apropriou de 68% do crescimento da renda nacional.

A pesquisa reforça estudos anteriores dos pesquisadores Marcelo Medeiros, Fabio Castro e Pedro Souza, da Universidade de Brasília, os primeiros a complementar os dados da Pnad/IBGE com informações de declarações de Imposto de Renda obtidas na Receita Federal.

Ao combinar dados tributários, que tendem a subestimar menos a renda dos mais ricos do que as pesquisas amostrais, com os dados da Pnad, que capta melhor a renda dos mais pobres, os pesquisadores brasileiros já haviam concluído que não houve queda na parcela da renda apropriada pelo 1% mais rico no Brasil ao longo dos anos 2000.

Embora o foco do trabalho de Marc Morgan seja a distribuição da renda pré-tributação, sabemos que o nosso sistema tributário altamente regressivo não corrige o problema: ao contrário, a alta parcela da renda dos mais ricos que é isenta de Imposto de Renda nos deixa ainda mais distantes de países com uma distribuição mais igualitária.

Mas, embora nada tenha sido feito ao longo dos últimos governos para redistribuir renda do topo para a base da pirâmide, o que exigiria, por exemplo, o aumento da tributação sobre a renda e o patrimônio dos mais ricos e a redução de impostos sobre o consumo, certamente houve melhora na distribuição de renda na base da pirâmide.

Além do efeito das transferências de renda, tanto os dados da Receita quanto os da Pnad/IBGE mostram que houve forte redução da desigualdade salarial naquele período.

Em outras palavras, ainda que os salários tenham ficado menos concentrados nos anos 2000 graças ao crescimento acelerado dos rendimentos de trabalhadores da base da pirâmide —fruto da valorização do salário mínimo e do crescimento de setores muito intensivos em mão de obra menos qualificada—, a renda do capital cresceu ainda mais e se manteve altamente concentrada na mão dos mais ricos.

Um trabalho de Marcelo Medeiros e Fabio Castro realizado para os anos 2006-2012 sugere que o crescimento da renda do capital foi o grande responsável pela resiliência da desigualdade no período, não por causa do aumento dos lucros das empresas, e sim pelos altos ganhos de capital obtidos sobre a riqueza acumulada.

Essa medida capta, por exemplo, a forte alta nos preços dos imóveis e de ativos financeiros que marcou aqueles anos.

Mas, se a queda da desigualdade de renda na base não foi suficiente para compensar os ganhos derivados da alta concentração da riqueza na mão dos mais ricos na última década, as características da crise atual e da política econômica implementada, por sua vez, apontam para um aumento da desigualdade também na base da pirâmide nos próximos anos.

Um estudo recente da Tendências Consultoria com base em dados da Pnad sugere que, no que tange à massa de salários, as famílias da chamada classe A —com renda superior a R$ 17.286 mensais— obtiveram um crescimento da renda seis vez superior à média no primeiro semestre deste ano.

Texto publicado na Folha de S. Paulo em 14/9/17

Curadoria realizada em 16/11/2017

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