Mulheres da Central Histórias de violência doméstica, preconceito e machismo

Fotos de Guga Ribeiro, depoimentos colhidos por Vinicius Silva.

Dezoito mulheres, dezoito histórias de sofrimento e coragem. No próximo dia 1° de setembro será lançada a exposição "Mulheres da Central", no Centro Cultural Unisuam, em Bonsucesso. Os relatos foram colhidos pelo jornalista Vinicius Silva, através do projeto "Me Alugo Para Ouvir Histórias", idealizado por ele mesmo. As fotos são de Guga Ribeiro e a mostra, que vai até 16 de setembro, é uma promoção do Instituto Masan.

NORMA MARIA DE SOUZA (foto do alto)

Tive a surpresa do Kevin ter sido vítima de um erro médico. Foi um filho que eu não imaginei, mas que eu tive que me acostumar, me adaptar. Foi um reajuste da minha vida, como mãe, como mulher, e até na família, porque meu esposo também imaginava ter um filho, homem, com o qual ele pudesse passear, jogar bola, compartilhar. Fica um luto eterno dentro de você e, pra conseguir dar a volta por cima, eu transformei esse luto em luta diária.

ADRIANA NOGUEIRA

A mulher tem uma força interior tão grande, capaz de movimentar o universo. A mulher é mãe, esposa, dona de casa. Hoje em dia, ela está sendo pai, mãe... A mulher não deve permitir que ninguém tire a sua vontade de viver, de batalhar pelo que ela quer, pelos seus sonhos e ideais. Se ela quer ser dona de casa, então seja. Se ela quer ser mãe, vá ser e se doe como mãe. Se ela quer ser médica, então seja uma boa médica. Ela só não pode permitir que alguém [cruza os punhos] a amarre. Que a mulher seja livre para ter o mundo a seus pés!

ALESSANDRA MARIA R. C. DAS NEVES

Meus pais sempre tiveram muitas regras: ‘não pode isso, não pode aquilo’, e eles estavam certos... Mas eu queria ter minha liberdade! Então, achei que me casando aos 15 anos, com um cara de 24, estaria me libertando, mas eu me enganei. Fui ainda mais prisioneira. Ele era um homem muito violento! Não era um empurrãozinho. Era perna e braços quebrados, era o meu rosto todo desfigurado. Vários boletins de ocorrências e muitas porradas até eu ter a minha liberdade de ir e vir.

MARIA APARECIDA TAVARES DUARTE

Eu estou viúva... E não tenho nada que reclamar do meu esposo. Eu enterrei ele quinta-feira agora. Ele era uma pessoa maravilhosa. Era. Agora... Eu não sou triste, porque, quando você é uma pessoa bem casada, não tem como ficar triste. Não fico lamentando. As pessoas me perguntam na rua: ‘Aparecida, o Jeremias já teve alta?’, e eu: ‘Já! Ele foi pra glória!’. Ficam espantados, porque eu trato com naturalidade. ‘E agora?’, o povo pergunta. Agora é bola para frente. Sempre serei casada, porque eu tive um ‘senhor’ casamento.

MARIA SOARES

Já quis mudar meu nome e acrescentar um ‘só’, de tanto que me perguntam se é Maria Soares só. Eu preciso ter o sobrenome do meu pai ou, por machismo, o sobrenome do marido? Vou fazer 92 anos em abril. Há pouco tempo, nessa passeata pró-Dilma... Eu não sou Dilma, não sou PT, PSDB, nem nada... Peguei uma cartolina e escrevi: ‘respeite meu voto’ e fui. Aquilo foi o que mais chamou a atenção na passeata, não sei se pela minha idade... Estava na concentração e o assédio já era enorme. A minha foto foi parar num jornal da Espanha.

MARCIA CRISTINA SANTOS DA SILVA

Eu sou mestre de obras! O meu ex-marido achava muito estranho. Tanto que o casamento não foi adiante. Ele é machista e não aceitava a mulher dele sair às 3h da manhã de casa para trabalhar num ambiente todo masculinizado. A sociedade acabou impondo que a mulher foi feita pra casar, procriar e cuidar, e que essa profissão é ‘coisa de homem’. Mas eu sou mulher! Estamos buscando essa igualdade. A gente não tem que correr na frente dos homens, mas lado a lado.

ELMA MARIA DA SILVA DE ALLEULUIA

Será que só pode ter aeroporto Tom Jobim ou Santos Dumont? Nomes de homens importantes? Não! Dentro do morro, têm pessoas, famílias dignas. Alzira de Alleluia foi uma mulher digna. Uma mulher de fibra, analfabeta... Mas ela sabia dar amor e carinho, e isso permeia o coração da criança e elas podem ter uma vida diferente. Todas nós temos uma história! Triste ou alegre, é uma história.

IVANILDA XAVIER S. DE OLIVEIRA

Ela foi... Como é que fala mesmo? Foi roubada por uma máfia. Não foi uma máfia do bem. Foi uma máfia do mal. Coisa de novela. Descobri todas as coisas dela, mas juiz, ninguém, nenhum, acreditou em mim. Então, o juiz falou assim: ‘Você confiou porque você quis’. Aí, eu falei: ‘Olha, se põe você, há 40 anos, com um barrigão, com uma criança pequenininha, indo nas portas, batendo palma, ‘Me dê um prato de comida!’, aí vem uma senhora com cara de santinha, você confia’.

ILACI LUIZ

Tudo começou quando eu contava histórias para as crianças e aplicava reforço escolar. Mesmo sem formação, já ajudei muita gente a ler e a escrever. Para mim, ouvir e contar histórias transformam vidas. A gente vê a mudança no desenvolvimento social das crianças e dos adultos também. O filho começa a estudar, os pais a trabalhar e tudo vai se estruturando... Eu sinto, diante de Deus e dos homens, que dia a dia, cumpro meu mandato de cidadania. É um exercício de acolhimento.

ROSINEIA AVELAR DE S. DE C. SIQUEIRA

Essa parte da minha história é muito triste e isso fez desencadear muitas coisas na minha vida, como o câncer de mama. Cheguei a perder uma das mamas... No meu trabalho, eu perdi a concentração. Cheguei a dar uma hemorragia lá e tiveram que me socorrer... Estou fazendo tratamento psicológico, porque isso tudo mexeu muito com a minha cabeça. Tenho medo de sair de casa. Tudo me apavora. O que é a minha base central é Deus. Deus é a minha fonte de inspiração, que me faz querer lutar pela minha vida, pela minha aparência, pelo meu jeito de ser e agir.

NILL SANTOS

Esse é o meu nome social, porque ninguém me conhece por Nilcimar. Fui batizada assim pelos amigos e não gosto muito de ouvir o Nilcimar, porque fui vítima de violência e meu ex-marido só me chamava de Nilcimar. Nill é um nome mais carinhoso. Em hebraico, significa ‘sempre avante’. Seja protagonista da sua própria história. A protagonista sofre a novela toda, mas, no final, ela sempre é feliz. Você escreve seu final feliz.

JANAÍNA DA CONCEIÇÃO GIOSEFFI

Eu vim do nada. Saí de Valença porque minha mãe tinha falecido. Estava passando necessidade, fiquei um mês comendo só abacate. Não desisti. Não precisei me prostituir, nunca tive envolvimento com droga. Morei dentro da comunidade e não me envolvi. Só tive força de vontade e fé em Deus. Poderia ter escolhido caminhos errados e não quis. Eu trabalhei. Eu venci. Venci e não vou parar aqui. Vou continuar!

JANE PEREIRA

Meu nome é só isso mesmo, é pequeno, mas eu sou grande. Eu me reinvento a cada momento. Hoje, vivo da minha arte e dessa flexibilidade de ter que se reinventar todo tempo. Acho que essa é a minha força. Querer ser você mesma, caminhar com seus próprios pés é muito difícil. Tem que ter uma força interior muito grande. Não tenham medo da mudança, acreditem em vocês, porque nós somos capazes!

LEILA MARIA ARAUJO DE SOUZA

Sou motorista de ônibus profissional e não temos uma profissão reconhecida. Na minha carteira de trabalho, motorista não é uma profissão, é uma função remunerada. Um dia, indo pra Campo Grande, eu parei no sinal e um motorista do meu lado gritou: ‘Vai procurar um tanque pra lavar roupa!’. Foi assim, do nada. Eu tirei a cabeça pra fora do vidro e respondi: ‘Já comprei uma máquina pro homem que eu deixei em casa!’. E ele saiu do carro revoltado, dizendo: ‘Além de tudo, é abusada!’. O sinal abriu e eu fui embora.

SÍLVIA SOARES MAGALHÃES

Eu era de uma família rica e, pelo que me contaram, minha mãe engravidou antes de casar e por isso ela se desfez de mim. Foi minha irmã de criação, aos 15 anos, que me encontrou, toda desnutrida, só pele e osso, abandonada numa caixa. Quando minha mãe biológica descobriu que eu estava sendo bem cuidada por uma família pobre, ela me quis de volta, mas só pra fazer maldade. Ela me pegou e, se não fosse um dos meus irmãos de criação impedir, ela teria me colocado no forno de lenha.

MARIANA MANDARINO

Eu conheci o mundo sem ver. Não vejo desde os nove meses. Não enxergo nada, nadinha, nem claridade, nem sombra. Muitas pessoas me perguntam se eu gostaria de ver e eu falo que não. Porque, pra mim, o mundo é assim mesmo. Quando você conhece o mundo assim, ele é muito menos de aparência, você conhece as pessoas pelo que elas fazem. Não me interessa como você está. O que vai interessar é o jeito que você vai conversar comigo. Isso vai definir se eu vou gostar de você ou não.

SOLANGE ROSA DE SOUZA

Perdi meu único filho. Há oito anos, mataram o Luciano. Tive uma depressão e, pra ser curada, resolvi trabalhar com quem passa por essa mesma situação. Fui mãe aos 13 anos... Uma menina não cria uma criança, né? Tive algumas falhas como mãe... Eu não tive aquela estrutura de olhar o filho, de ver o que ele está usando... Quando eu vi, já era tarde. Não tive esse suporte pra passar para ele. Às vezes, só um abraço resolve muita coisa. Ouvir, assim como você está fazendo. Eu não tive esse abraço, nem fui ouvida.

VALÉRIA VIEIRA COELHO

Estou em processo de rua, embora tenha família. As carreatas dão alimentos, toalhas novinhas, tinha coisa até de marca, tipo sabonete Dove, mas aí, um dia, tive uma dor de barriga porque comi comida do lixo e, quando voltei, estavam levando tudo. ‘Ô, moço! Pelo amor de Deus!’, eu implorei, até ajoelhei, e me ameaçaram. Levaram até meus exames, porque descobri que estou com um mioma e vou ter que operar.

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