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Querido Pai Natal As histórias por detrás da barba

O Homem das Barbas

Em boa verdade, nesse dia não conhecemos o Pai Natal. Conhecemos, sim, aquele que lhe empresta o corpo, porque a alma, ainda que parecida, altera-se. "Quando eu visto o fato sou outro. Mesmo se estiver ainda nos bastidores ou elevadores. Deixo de estar cá e começo a sentir-me outra pessoa."

A frase é de Severino Moreira. Com 69 anos, dois filhos e três netos, deu uma volta à sua vida quando deixou de ser empregado bancário e se reformou mais cedo. Coisa que, para ele, foi uma bênção: "Nunca gostei daquilo! Cumpri a minha função da melhor forma durante 32 anos, mas não me sentia realizado".

E a verdade é que parece ter tomado a decisão certa, já que não para de sorrir. Mas isso não vem da reforma antecipada: vem do que fez depois. Do que faz agora. É o Pai Natal do Centro Comercial Colombo há 18 anos. E isso sim, realiza-o de todas as formas. "Há quem me chame louco e me pergunte como é que eu tenho paciência para isto. E a verdade é que é tão fácil, porque eu recebo e aprendo tanto. O Pai Natal é de uma dimensão humana espantosa".

Hoje em dia não é só um trabalho, é uma necessidade. No dia em que eu já não fizer o Pai Natal, se passarem por mim vêem-me a chorar,

Estávamos no ano 2000 quando Severino aceitou o desafio de encarnar ali a personagem. Antes, apenas o tinha feito em casa e... numa campanha publicitária, que o catapultou para o trono onde se senta agora. Passados 18 anos, diz já não conseguir viver sem o Pai Natal: "Isto já nem é um trabalho, é uma necessidade! No dia em que deixar de fazer de Pai Natal, quem me vir pergunta porque é que aquele gajo está ali a chorar".

Agora, com 69 anos, não pensa no adeus ao fato vermelho, mas reconhece que o fim pode estar para breve. Tanto o do Pai Natal como o do próprio Severino. Mas sem preocupação, apenas com um sorriso na cara, como habitual:

A vida foi muito boa para mim por me dar a oportunidade de a terminar a fazer o Pai Natal.

A Arte

Depois de encontrarmos a barba de Severino na Praça Central do Colombo, seguimos caminho pela sua rotina diária. Entrámos por uma daquelas portas a que só têm acesso trabalhadores..

Ansiámos pelo que estaria atrás dela. Como seriam as entranhas do Colombo? Que mistérios guardariam? E como seria o camarim do Pai Natal? A resposta estava... num pequeno anexo do parque de estacionamento. Pouco mágico? Talvez. Mas nada que o Pai Natal não resolva.

Afinal de contas, é aqui que a magia acontece, e assim que a pesada porta de metal se abriu, rapidamente o parque de estacionamento e aquele pequeno espaço se coloriram. Era a fábrica do Pai Natal!

"É um espaço pequenino, mas chega bem. Ao menos agora já temos aqui água, coisa que não aconteceu noutros anos."

Por entre inúmeros fatos, molhos de cartas ou todo um conjunto de maquilhagem, é aqui que tudo acontece. A secretária, essa, espelha bem essa panóplia de coisas que ali se passam: uma caixa disto, uma caixa daquilo, batons, lacas ou cremes. E tudo é necessário para que Severino deixe de o ser e encarne o Pai Natal.

Tenho sempre de chegar uma hora antes, porque isto não é só vestir um fato! Eu gosto mesmo de encarnar a personagem!

Pintar as sobrancelhas

É o primeiro passo da preparação de todos os dias. "São um pouco mais escuras do que o resto e gosto de lhes dar um toquezinho".

Avermelhar

Qual Rodolfo qual quê! Quem disse que só as renas podiam ter narizes vermelhos? Severino volta a surpreender: "Tenho um produto para deixar as maçãs do rosto e o nariz mais avermelhados. Isto tem de ser feito com alguma subtileza para não se exagerar!".

Cabelo de Jovem

"Sabe: o meu cabelo não esbranquiçou à mesma velocidade da barba. Então ponho este spray, que sempre disfarça um pouco". As passagens são várias e lá enevelhece Severino mais uns anos.

Dos Pés À Cabeça

A primeira parte do fato a ser tratada são as botas. São especiais, mas não por serem grandes: têm um pormenor feito à medida! "Um dia pensei que seria giro pôr um coração aqui na zona dos atacadores. Fui à Baixa e o senhor até me deu umas sugestões. Aliás, o coração é vermelho por causa dele, adorei a ideia!". Depois disso, prende as botas ao fato com umas fitas.

O Fato

Cinto aqui, manga acolá. Com uma camisola interior - que tem de mudar uma vez por dia - lá se veste o resto de um dos uniformes mais famosos do mundo. E já estamos a chegar ao fim...

O Barrete

Não há Pai Natal sem barrete e esse fica sempre para o fim. Juntam-se a ele os óculos e um cajado, com uma bússula no topo: "Achei que era um bom adereço, tento sempre melhorar o personagem!"

Está tudo pronto. Fisicamente. Porque por dentro há que se preparar igualmente bem: "Já houve gente que veio cá fazer Pai Natal e não aguentou. É um stress constante, nem todos aguentam. Uma vez veio cá um GNR, um homem enorme, e disse que queria fazer. Quase que gozou comigo quando lhe disse que era estafante. Uma semana depois disse que não aguentava mais". Mas este aguenta. E está pronto para ir: aí vai o Pai Natal!

Saco Cheio de Emoções

Finalmente sentado no trono. A preparação é morosa e por vezes complicada, mas o restante do dia é ainda mais exigente. Fisica e psicologicamente. Para além de alguns momentos fortes, há sempre algumas situações imprevisíveis: "Há que ter autocontrolo. Não fica bem ao Pai Natal fazer uma cena, não é? Mas às vezes ouvimos o que não queremos."

Mas isso fica na espuma dos dias. Há outros momentos emotivos que marcam e não só por breves segundos. E quase sempre com crianças: "Quem está a personificar a personagem tem de procurar credibilidade e esforçar-se, mas a magia disto está na criança". E quem melhor do que elas para sensibilizar alguém?

Eu tenho um defeito ou qualidade, que é ser muito chorão. E dou por mim muitas vezes com a lagriminha no olho. E nem sempre é com crianças!

Pedimos-lhe que nos contasse o pedido mais emocionante que já lhe fizeram. Começou com uma gargalhada, dizendo que já houve muitos, mas acabou com os olhos bem vermelhos, a conter as lágrimas. Mas lá contou duas histórias. Ficam aqui por inteiro, para que a emoção não seja cortada.

«Um dia, num domingo à tarde, tirei umas fotos com um menino daqueles reguilas. E ele já ia a sair quando se vira para trás e diz “Dá um beijo ao meu pai”. Estava o centro comercial cheio, com centenas e centenas de pessoas ali à volta! E eu admiti que ele me estava a pedir para dar um beijo ao pai, que ali estaria. E eu peguei-lhe de novo na mão e perguntei-lhe onde estava então o pai. E ele, muito naturalmente, diz-me: “O meu pai está no céu”.»

«Lembro-me sempre de uma menina, com oito, nove anos, que um dia me diz assim, muito tristonha: “Oh Pai Natal, eu estou muito triste. O meu mealheiro não tem lá quase nada. Eu queria comprar uma prenda à minha mãe e não tenho dinheiro”. E depois ela faz-me a pergunta que queria fazer: “Oh Pai Natal, achas que se eu tirar uma rosa do jardim e lhe der ela fica contente?”. Bem... ainda hoje a contar isto fico emocionado. E disse-lhe “Oh querida, nem penses em mais nenhuma prenda. Faz isso e vais ver que quando deres a rosa à tua mãe, os olhos dela vão brilhar e ela vai ficar tão feliz! Porque é tudo aquilo que tu quiseste e pudeste dar!”. E a menina sorriu e disse “Eu dou!”.

Mas nem só de histórias mais melancólicas se faz o percurso do Pai Natal nestes dezoito anos no Centro Comercial Colombo. Muitas delas são de explodir a rir e lançam outros desafios a Severino.

Ele dá-me um puxão, daqueles a sério! Doeu, mas a barba ficou lá! Ao menos passou a acreditar!

A barba é das principais visadas, não ficase ela desde junho de cada ano sem sofrer qualquer corte. Às vezes é até motivo para conflitos: "Houve um miúdo que só acreditou em mim depois de me puxar a barba. Depois virou-se para mim e disse 'Pai Natal, eu vou dar um murro ao meu colega Rodrigo, porque ele disse que não existias!'".

Por vezes os próprios pedidos são motivo para risos e descompor Severino. A ele e a quem lhe faz entrevistas como nós: "Não acredito!". Foi essa a nossa reação quando o Pai Natal desvendou o pedido mais estranho que já lhe fizeram. Os três mais estranhos estão em baixo, mas como pista para o vencedor damos a justificação do Pai Natal:

Na altura até me insultaram, chamaram-me de "aldrabão". Mas depois pediram desculpa, que estavam desempregados e que andavam a passar mal e até tirámos uma foto todos!

Natal Rima Com Amor

Ainda que seja a cara do Natal, pelo menos no Centro Comercial Colombo, Severino não guarda para si qualquer protagonismo natalício. Aliás, nem foi habituado assim: "A honestidade é muito bonita e nunca fica mal. Até ajuda a compreender as coisas. O meu Pai Natal não era o Pai Natal, era o Menino Jesus."

Depois cresceu, o Natal mudou e passou a olhar mais para a figura que encarna agora. Diz-se apaixonado por ela, mas não esquece o Menino de Belém. Aliás: gostava de os ver juntos. "Até é com alguma mágoa que digo isto, porque sou católico. Mas não entendo porque é que a Igreja despreza tanto o Pai Natal. No fundo ele representa o mesmo que o Menino Jesus: o amor! E é isso que importa no Natal, é essa mensagem de amor!".

E é mesmo essa mensagem de amor que gosta de passar às crianças, ainda que não tenha muito tempo para o fazer. "Eu estou a falar com uma criança e vejo que há mais 50 para atender. E os pais estão ali, coitados, também à espera."

O Natal só acontece se estivermos com aqueles de quem gostamos à mesa. Só com as prendas não acontece. E isto não é conversa.

Mas o conteúdo é passado a todos. Sempre com a mesma ideia na cabeça: "O Natal, para mim, significa verdadeiramente um tempo muito bonito, de reconciliação. Mesmo nas pessoas ditas mais insensíveis, parece que naquela altura há ali uma quebra."

Mas Severino não se fica só pelas palavras e cumpre o ideal de Natal à risca: para além de ser Pai Natal do Centro Comercial Colombo, faz mais do que isso. É o Pai Natal do bairro e de todos os bairros que o chamarem.

"Quem sou eu para recusar um pedido tão bonito como esse? Tento sempre considerar todos esses pedidos!", diz Severino, que já considera a sua esposa como secretária do Pai Natal.

Lá para vintes recebo inúmeros pedidos para entregar prendas lá no bairro. Não tenho uma Consoada descansada há anos! Mas adoro aquilo...

"Coitada, é sacrificada, já sabe o que dizer quando as pessoas tocam à campainha. 'Às x horas desça com a prenda, que o Severino lá estará à espera'. Epa e eu vou lá entregar.", diz aquele que é já um autêntico Pai Natal.

Severino Moreira já entrega prendas como Pai Natal há anos. No Colombo, recebe crianças e crianças grandes há dezoito. Já recebeu crianças que se tornaram pais e lá levam os seus filhos. E o ciclo da magia passa. Acredite-se ou não no Pai Natal, há algo em que é possível acreditar: na magia que Severino quer passar a toda a gente. E enquanto essa existir, o Natal será sempre melhor.

O Pai Natal não é religioso nem científico. Mas é a última oportunidade de vermos alguma magia.

Reportagem Multiplataforma realizada para a cadeira de Ateliê de Jornalismo Multiplataforma, na Escola Superior de Comunicação Social.

Reportagem (Entrevista, Montagem, Edição e Fotografia) por André Maia e Mário Barata.

Um nosso grande obrigado especial ao Severino Moreira pela amabilidade e simpatia e à Catarina Marques e restante staff pela ajuda e disponibilidade.

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