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ISRAEL: COSTUMES, PESSOAS E LUGARES Se viajar é construir, ir para Israel é rever pré-conceitos

Onde moram? Como vivem? O que comem? Assim as pessoas me indagam desde que visitei Israel, em novembro de 2016. Resolvi compartilhar minhas impressões deste lugar que, para dizer o mínimo, é surpreendente.

Eu viajo para trabalhar e trabalho para viajar. Tem sido assim desde que me tornei fotógrafo profissional, depois de uma trajetória intelectual enriquecedora por jornais, rádios e, por fim, agências de publicidade na área de criação. Quando soube que passaria quase duas semanas em Israel a convite de seu governo estremeci—de alegria e, confesso, um relativo medo do incerto.

Era uma viagem com propósitos claros: produzir retratos de quem eu quisesse, assim como registrar lugares e costumes de qualquer canto de Israel. Eu havia sido escolhido entre quase uma centena de fotógrafos para retratar o país da forma que quisesse. Interessante tal liberdade porque, como fotógrafo comercial que sou, faz parte da minha rotina seguir briefings detalhados, guides de marcas, ideias de outros criativos. Dessa vez era eu comigo mesmo. O Consulado de Israel em São Paulo, patrocinador integral da empreitada, me deixou absolutamente à vontade sobre onde eu iria e quem fotografaria. Queriam fotos com meu olhar, não importava do que.

A primeira impressão agradou de cara. Dava para chegar de transporte público ao apartamento que tinha alugado. Um trem levava até uma estação no centro de Tel Aviv e, de lá, um busão bem digno deixava na porta do prédio. Para um viajante poucas coisas permitem experimentar tão bem a realidade de um lugar como usar seu transporte público.

Depois do check-in era hora de fazer o reconhecimento de terreno. O apartamento ficava numa área próxima à praia, especificamente na Ben Yehuda com a Sderot Ben Gurion, uma região cheia de boulevares bem cuidados, bares e restaurantes charmosos com seus varais de lâmpadas, mesas na calçada, movimento intenso de gente vivendo a cidade.

Como morador da cidade de São Paulo as primeiras horas na rua de qualquer lugar do mundo sempre me deixam em alerta constante em relação a possíveis gatunos. Ainda mais com câmera fotográfica à mostra. Em Israel esse medo cai para zero rapidamente. A violência urbana é insignificante. A treta deles é outra. Em vários locais públicos como estações de trem você vê placas apontando Exit, Information, Taxi, Restroom/Bunker. Isso mesmo. Bunker.

Aliás, a segurança militarizada assusta um pouco no início. Depois passa a ser normal cruzar com soldados do exército indo e vindo de seus quartéis, policiais, agentes do serviço secreto em todo e qualquer lugar do país. Me habituei tanto que se aparecesse o Rambo ou o Robocop ia achar natural. Acontece que estes militares passam a percepção um enorme preparo, seja nas abordagens rotineiras, seja na postura com as armas.

Em todas as estações de ônibus, trem e shoppings centers encontrei check points nas entradas. Há um raio-x corporal semelhante aos de aeroporto e uns caboclos dando uma conferida em bolsas e mochilas. As pessoas estão tão acostumadas que não existe fila nem reclamação. Poucas passadas e você também fica craque no procedimento: bolsa na esteira, passa pelo raio-x, eventualmente uma olhada complementar e tchau.

No fim de um dia qualquer eu estava fotografando em frente à uma estação de trem quando fui abordado por um agente pacote completo—todo de preto, rosto semicoberto, foninho transparente no ouvido, granada na cinta, AR15 no peito, pistola, arma de choque, colete à prova de balas, faca na botina, estilingue devia ter também.

“Boa tarde, o senhor é de onde?”, lascou o security, em inglês. Expliquei que era brasileiro, vindo de São Paulo. “Está longe de casa, hein?”, retrucou, num rascunho de sorriso (nesta hora percebi que a carteirinha de brasileiro também funcionaria excepcionalmente bem em Israel). Perguntou o que eu havia acabado de fotografar, pediu pra ver, se desculpou pelo incômodo e me desejou boas fotos e uma ótima noite. Depois dessa concluí que já tive mais medo de dizer as horas a um policial brasileiro do que ser questionado por um agente de segurança numa cidade perto da faixa de Gaza.

Credits:

©Agê Barros

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