O reino dos céus é semelhante... reflexões em Mateus 13,31-33.44-52

Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos.

Disse-lhes outra parábola: O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado.

O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.

O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra.

O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. E, quando já está cheia, os pescadores arrastam-na para a praia e, assentados, escolhem os bons para os cestos e os ruins deitam fora. Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes.

Entendestes todas estas coisas? Responderam-lhe: Sim! Então, lhes disse: Por isso, todo escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.

Quase que instintivamente, não vejo melhor maneira de iniciar esta reflexão partindo da pergunta de Jesus aos discípulos após essa série de cinco parábolas: “Vocês entenderam tudo isso?”, ou melhor, “Entendemos nós todas essas palavras/parábolas?”.

Mateus 13 traz uma série de sete parábolas, sendo que as duas primeiras — a dos solos e a do joio e do trigo — contam com suas “explicações alegóricas” dadas pelo mestre aos discípulos quando estes lhe perguntaram seu sentido. Além disso, o capítulo conta também com outra explicação acerca do motivo de falar em parábolas.

As parábolas eram ditos de sabedoria, histórias aparentemente simples — ou mesmo simples e cotidianas — que levavam a uma profunda reflexão de seus sentidos nas entrelinhas das histórias. Muitas vezes, por conta dessas perguntas sobre seu sentido, temos a impressão de que são tão profundas que se tornam outra coisa. “Falar por parábolas” ganha o aspecto anunciado pelo próprio Jesus de transmitir mistérios escondidos nelas...

As cinco parábolas que lemos nesse capítulo continuam a explorar a ideia do que pode ser comparado ao reino de Deus, iniciada com a parábola do joio e do trigo. Em termos técnicos é uma símile, uma comparação (o reino dos céus é semelhante a...).

Jesus anuncia aos seus ouvintes/discípulos que o reino dos céus é diminuto e silencioso, mas poderosamente transformador (v.31-33). Assim é a ideia contida por trás da semente de mostarda, pequena demais para se levar a sério e capaz de fazer brotar um arbusto pequeno, bem maior e mais respeitável do que sua origem diminuta. Na mesma toada, o que é um pouco de fermento em tanta farinha? Agindo silenciosamente, é capaz de transformar totalmente a massa.

Às vezes não damos conta de que nossas pequenas e silenciosas ações são capazes de transformar a realidade em que estamos inseridos. Muitas vezes não acreditamos nos pequenos agires e chegamos a ridicularizar a possibilidade de algum futuro partindo de um singelo, diminuto e silencioso início. O reino dos céus é assim: capaz de transformar realidades a partir desses começos “insignificantes e inexpressivos” conforme nossa forma de ver as coisas.

É interessante notar que essa forma de falar do Reino vai na contramão das expectativas triunfalistas que muitos de seus discípulos, inclusive o do grupo mais próximo, alimentavam com respeito a Jesus e ao reino de Deus. Para Jesus, as mudanças ocorrem no âmago do ser, lenta, silenciosa... quase imperceptível. E quando se dá conta, eis que os valores do reino ganham forma, crescem e se agigantam dentro da gente e agem poderosamente, modificando realidades.

Continuando com suas parábolas, Jesus diz aos seus ouvintes que o reino é uma escolha arriscada (v. 44-45). Novamente em par, Jesus fala de um homem que encontra num campo um tesouro e volta a enterrá-lo para mais tarde desfrutar dele, ao comprar o campo. E na outra, um negociante de pérolas vende tudo o que tem para comprar, assim como o homem do tesouro no campo, a tal rainha das pérolas.

É inevitável deixar de falar da alegria contida nessas histórias, assim como é inegável o valor do reino e dos seus princípios que as parábolas comunicam ao ouvinte. Sim, o reino tem valor inestimável e inequívoco: exige abrir mão de tudo o que temos para tê-lo.

Mas também a primeira história conta com um elemento não muito comum: por certo, qualquer pessoa que encontra um tesouro, não o enterra novamente e “corre o risco” de outra pessoa o descobrir e não ter tanto escrúpulo quanto ele. Provavelmente o tomaria logo para si. Correr riscos aqui é mesmo igual a abrir mão de todo o resto pelo que se encontrou/descobriu.

Jesus anunciava aos seus ouvintes que o assumir a lógica do reino, seus valores e ideais é arriscado, pois significa pensar e agir diferentemente, ir na contramão de toda acomodação, entregar-se a Deus e dele depender para absolutamente tudo. Em suma, arriscar sua vida em prol do reino. O reino de Deus não é deste mundo e, portanto, sempre encontrará oposição. Difícil é quando achamos que um e outro reinos (o do céu e o do mundo) são o mesmo...

Mas chegando ao final de suas histórias, Jesus diz que o reino é inclusivo, mas exigente (v. 47-50). Talvez a metáfora mais intrigante diante de nós seja dizer que o reino é uma grande rede, que apanha de tudo... Isso também vai na contramão do que nossos juízos de valor estabelecem, afinal acreditamos no conceito de merecimento e dignidade. Dessa forma, nem todo mundo “merece” ou é “digno” para estar no reino. Mas, num primeiro momento, a história fala do reino que é capaz de abarcar a todos. Mas não fica assim... a história continua para dizer que depois, assim como numa pescaria normal, os pescadores separam o que é aproveitável do que não é.

Nem todos que foram atingidos pelo reino se rendem aos seus princípios e valores; nem todos arriscam suas vidas pelo reino; nem todos o consideram em seu valor e importância; nem todos acreditam nos seus singelos começos e nem no futuro grandioso causado por sua poderosa ação transformadora.

É claro que não se trata de um critério ou exigência para excluir o que “não presta”; antes é constatação lamentável e inevitável de que não é consenso morrer pelos valores do reino. Fechando um ciclo de parábolas, essa história em particular tem muito do que são os quatro solos da primeira parábola (Mateus 13,1-9), pois nela se vê como é difícil encontrar ouvinte que escolhe se tornar discípulo, capaz de gerar frutos e ele mesmo “prover novas sementes”, sendo também semente anunciando por palavras e ações o reino que cresceu e se agigantou dentro de si.

Embora seja inclusivo, o reino não é para todos ou qualquer um. No entanto, a nós, capturados por essa grande rede, cabe viver o reino e não decidir o que é útil ou não. Seria muito estressante se nos incumbíssemos dessa tarefa!

Para finalizar a “contação de histórias”, Jesus questiona se seus ouvintes entenderam tudo isso. Ao ouvir uma resposta afirmativa, o mestre conclui que “todo escriba versado no reino é como um pai de família (proprietário) que tira do seu depósito coisas novas e velhas”. Embora seja muitas vezes carregado de aspectos negativos, o escriba é aquele que estuda ou se aprimora na lei. Mas se versado no reino, é como um provedor que tira coisas novas e velhas de seu depósito. Alguém disse que isso seria uma forma de dizer que Jesus chamava seus discípulos a transmitirem os mistérios do reino com sua própria forma de falar... Mas também faz conexão com o novo e velho... o mesmo... Encontrar novidade em coisas tão antigas...

Entendo que esse texto, por meio dessas comparações, chama a atenção para compreender a profundidade e o valor do reino e engajar-se em sua ação poderosa e inclusiva que se efetua mediante o viver desse reino. Que Deus possa nos acrescentar sua palavra e que na ousadia do Espírito sejamos prontos para crer no reino que se constrói em cada um e a partir de cada um.

Marcelo Smargiasse

30.07.2017

Igreja Presbiteriana do Butantã

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Marcelo Smargiasse
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