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Para o lixo não

A Refood

Lixo de uns, tesouro de outros

Hunter Halder viu numa simples pergunta da filha uma oportunidade para começar aquilo que hoje em dia é a Refood. Depois de se ter apercebido do desperdício associado às grandes superfícies e à restauração, o fundador da Refood decidiu começar a entregar esse desperdício alimentar a quem realmente precisava.

Em 2010 surgiu a ideia, mas foi em 2011 que a Refood se tornou real. Hoje, dez anos depois, há 63 núcleos em todo o país, que contam com o apoio de 7000 voluntários para apoiar 6500 beneficiários. A Refood é, então, uma organização que, enquanto apoia famílias carenciadas, preocupa-se, também, com um sistema que está programado para produzir desperdício alimentar.

Como funciona?

Antes de as refeições chegarem à mesa de quem precisa, há todo um processo que envolve a cooperação entre as fontes e os voluntários. É graças a este processo que são distribuídas 150000 refeições por mês, oferecidas pela Refood. Tudo começa com os voluntários que têm como principal função ir às fontes (pastelarias, restaurantes, supermercados) e recolher os alimentos e/ou refeições que ficaram de parte.

A comida doada à Refood do Parque Das Nações

Para Filipa Machado, a gestora da Refood do Parque das Nações, a inscrição das fontes no núcleo já é um grande passo para controlar o desperdício alimentar.

“O nosso objetivo não é só ajudar as famílias que precisam de nós. Também queremos ajudar as fontes a perceber o desperdício que causam”.
Fruta doada pelo El Corte Inglês

Todas as fontes têm de preencher uma folha com tudo aquilo que estão a doar à associação e isso “faz com que eles tenham de olhar para o seu próprio desperdício”, disse Filipa Machado. A gestora da Refood do Parque das Nações fez questão de reforçar que isto ajuda as fontes a aperceberem-se da causa do seu desperdício, eliminando-a.

Preparação das refeições

Questionada sobre qual o alimento que mais recebem das fontes, Filipa fez questão de reforçar o facto de receber muito pão. “Chegamos a ter quatro sacos cheios de pão”, reforçou a gestora. Mas, mesmo assim, a equipa conseguiu arranjar uma solução: quando fica duro, o pão é entregue a um senhor que o dá às suas galinhas, reaproveitando-o.

A segunda fase é levada a cabo pelos voluntários da associação. Aquilo que recolhem é trazido para o núcleo ao qual pertencem e inicia-se a segunda fase deste processo: a preparação e entrega dos alimentos e/ou refeições que chegaram ao núcleo.

Nesta fase, o objetivo é chegar a um equilíbrio entre aquilo que se tem e as famílias que necessitam. A Refood garante uma refeição por pessoa e, neste momento, a Refood do Parque das Nações alimenta, todos os dias, 169 pessoas.

Preparação das refeições

A gestora da Refood do Parque das Nações garante que tem a noção de que há muita comida a ser deitada para o lixo e a ser queimada por dinheiro: “é tudo uma questão de negócio e dinheiro”. Segundo Filipa, as grandes superfícies que não se inscrevem numa associação como a Refood, fazem-no porque receiam que as pessoas não comprem depois de saberem que a comida é doada.

Produtos doados de uma pastelaria

Agora, para combater o desperdício e serem as suas próprias fontes, a Refood do Parque das Nações tem uma horta que é mantida por um dos voluntários. “Agora temos os nossos próprios produtos. Agora temos a nossa comida”, revelou Filipa Machado.

A terceira e última fase de todo o processo passa pela limpeza do espaço. É essencial para manter a organização e garantir que o espaço está em condições para o dia seguinte.

Zona de limpeza

Os três voluntários que acompanhámos - Luís (na recolha), Ravina e Joana (na preparação e entrega) - associaram “solidariedade” como a principal palavra que associam à Refood. Os três têm noção do papel importante que desempenham no núcleo e na vida das famílias apoiadas. O facto de a Refood procurar controlar o desperdício alimentar é, para os três, uma das características que destacam a associação.

Os voluntários Luís, Ravina e Joana (da esquerda para a direita)

Filipa Machado faz parte da equipa desde 2016. Durante este período de tempo, a gestora da Refood do Parque das Nações contactou com várias famílias que beneficiam da ajuda do núcleo. As histórias sobre aqueles que tinham uma vida confortável e de repente, por causa de dívidas, tornam-se dependentes da ajuda da associação, são as que mais marcaram Filipa.

A Pandemia

Em março, no início da pandemia, a Refood do Parque das Nações fechou durante três semanas. Depois de se organizarem e voltarem a abrir, os voluntários deixaram de aparecer e as fontes deixaram de doar porque tinham fechado ou estava a reinventar-se. Posto isto, os voluntários tiveram de “dividir o mal pelas aldeias”, ou seja, tiveram de fazer uma gestão inteligente da pouca comida que tinham.

Em junho, quando a pandemia acalmou em Portugal, a equipa de voluntários começou a crescer exponencialmente Neste momento, a equipa conta com 105 voluntários, entre os quais está uma equipa que gere o núcleo e todos os que passam pela Refood, desde os voluntários às famílias que necessitam. Em 2019, a Refood do Parque das Nações serviu 35018 refeições e receberam mais de 24 toneladas de alimentos, evitando o seu desperdício.

Organização da Refood do Parque das Nações

Kitchen Dates

Demasiado bom para ir para o lixo

Apesar do sistema em que vivemos estar montado para nos levar a produzir lixo, é possível cozinhar sem desperdício. Seja à mesa ou nos workshops, para os Kitchen Dates a sustentabilidade está sempre em primeiro lugar.

Mas como é possível ter um restaurante sem caixote do lixo? “É difícil, mas não é impossível. E nós somos a prova disso mesmo”, afirma Rui, um dos fundadores do Kitchen Dates.

O início

Tudo começou na Holanda, com um pedaço de pão. Maria e Rui viviam na altura em Amesterdão.

Este acontecimento acabou por se transformar numa mudança de filosofia de vida e de hábitos de consumo. Numa primeira fase, Maria e Rui deixaram de consumir progressivamente todo o tipo de produtos processados e optaram por começar a produzir tudo de raiz. A carne foi o primeiro alimento a desaparecer da sua alimentação, mais tarde o peixe e o marisco e por fim os ovos e lacticínios. Hoje em dia têm uma alimentação 100% vegetal.

Esta nova alimentação começou a suscitar cada vez mais curiosidade por parte de amigos e familiares. Para responder a todas as perguntas, decidiram criar uma página no Instagram, precisamente com o nome Kitchen Dates, que na altura significava apenas um encontro a dois na cozinha.

Passado pouco tempo, o encontro deixou de ser apenas a 2. Tudo mudou quando um casal amigo de Rui e Maria, que também vivia em Amesterdão, lhes lançou um desafio: abrir a porta da sua casa a estranhos, para provarem a sua comida. Foram precisos meses para o casal se aventurar neste novo desafio, mas hoje em dia reconhecem que foi uma das melhores decisões das suas vidas.

“Nada do que aconteceu desde então teria aparecido no nosso caminho se não fosse aquele primeiro brunch para quatro pessoas em Amesterdão, em Fevereiro de 2017”.
Maria e Rui em Amesterdão

Uns meses depois, Maria e Rui decidem regressar a Portugal. O primeiro evento organizado foi em outubro de 2017 e rapidamente as seguintes datas começaram a esgotar. O espaço já não era suficiente para acolher tanta gente. Até que os clientes começaram a perguntar: “Para quando um restaurante?".

“Nós sabíamos que um restaurante não era bem aquilo que queríamos ter, porque aquilo que nós tínhamos era uma experiência à mesa em que as pessoas partilhavam uma refeição, ideias e histórias de vida”, explica Maria. Foi com esta ambição de transformar um restaurante numa segunda casa que decidiram abrir o seu espaço, a que deram o nome de Kitchen Dates. Um espaço onde as pessoas pudessem aprender e questionar sobre aquilo que viam nos pratos.

Maria e Rui, no seu restaurante Kitchen Dates (foto cedida)

Mas não o fizeram sozinhos. O conceito que Maria e Rui pretendiam criar implicava elevadas despesas. Para isso, criaram uma campanha de crowdfunding, na qual as pessoas que já apoiavam o seu trabalho pudessem contribuir para o início deste novo negócio. Os nomes destas pessoas estão agora afixados numa das paredes do restaurante.

Nomes das pessoas que ajudaram a financiar o restaurante (foto cedida)

O conceito deste restaurante foi algo totalmente inovador em Portugal. Mas afinal, o que é um restaurante sem caixote do lixo?

Diretamente da terra para o restaurante

Ter um restaurante sem caixote do lixo obriga a repensar tudo desde a raiz. Em primeiro lugar, é feito um uso exclusivo de alimentos locais e biológicos, que são adquiridos diretamente através dos produtores. Ao descartar os distribuidores, acabam por eliminar a necessidade de embalar os produtos. Os alimentos chegam sempre em recipientes reutilizáveis.

Para além disso, a proximidade é outra preocupação. Os produtos vêm todos de um raio de, no máximo, 500 km do restaurante. Assim, alimentos que não sejam produzidos em Portugal, como o café, cacau, especiarias ou caju, ficam de fora do menu, pois a sua deslocação implicaria uma grande pegada de carbono.

De raiz

O restaurante só abre pelas 18h, mas o dia começa bem cedo para os Kitchen Dates. Às 11h da manhã, Maria e Rui iniciam a preparação da comida. Não há refeições pré-fabricadas. A moagem dos cereais, a fermentação dos vegetais e da fruta e a confeção de adoçantes próprios são algumas das tarefas do dia-a-dia. O objetivo é que cada alimento seja preparado de raiz.

Preparação das refeições

Uma das maiores dificuldades são os adoçantes, explica Maria. “As pessoas estão muito habituadas ao açúcar branco, mas o açúcar é altamente processado. Basta verificar que o açúcar provém da beterraba, mas a beterraba não tem toda aquela doçura que associamos ao açúcar. Por isso, é difícil mudar o paladar das pessoas e habituá-las a novos sabores”.

As ementas são pensadas de acordo com o que está disponível no momento, em sintonia com a natureza. Assim, os produtos variam consoante as estações do ano e o menu depende daquilo que as terras dos produtores dão a cada semana.

Algumas das refeições preparadas pelos Kitchen Dates:

Pão de trigo alentejano e de barbela
Tarte de maçã
Beringela no forno
Couve-coração com cogumelos salteados e batata doce

O que vem da Terra à Terra retorna

No final do dia, todos os restos que possam ter sobrado das refeições são transformados em composto. Esse composto é entregue de volta aos produtores, que o utilizam para devolver ao solo uma mistura concentrada de nutrientes.

A Eva é uma compostora elétrica e faz parte da família dos Kitchen Dates. Através de um processo de transformação de matéria orgânica num ciclo de 24 horas, a Eva dá uma nova vida àquilo que não é possível reaproveitar.

A Eva- a compostora elétrica

Além da comida

Mas as preocupações do Kitchen Dates vão também além da comida. Os materiais do restaurante foram também pensados, de forma a garantir a sustentabilidade. No espaço, há apenas uma única mesa, feita a partir de sobras de madeira. O objetivo é que os clientes possam conviver e partilhar a experiência uns com os outros, e não apenas com os seus acompanhantes.

A mesa do restaurante

As cadeiras são em segunda mão e os talheres e copos foram doados pela comunidade. Os guardanapos são de pano, laváveis e com um tamanho reduzido, apenas o suficiente para cobrir a boca. Na casa de banho, há um sistema que reaproveita a água do lavatório para as descargas da sanita. No espaço, tudo funciona a energia elétrica, oriunda de fontes 100% renováveis.

A pandemia

Como muitos restaurantes em todo o mundo, o Kitchen Dates também sofreu o impacto da pandemia. A ambição inicial de uma única mesa partilhada por todos os clientes foi substituída por lugares distanciados. Viram-se obrigados a adquirir mais mesas, que aproveitaram de um café em Lisboa que iria encerrar. “Perdemos a espinha dorsal do nosso conceito”, explica Rui.

Evento no restaurante antes da pandemia (foto cedida)

O desperdício alimentar

O desperdício alimentar é um problema ambiental, económico e ético, para o qual todos contribuem, desde o produtor ao consumidor.

De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) , a comida desperdiçada no mundo daria para alimentar cerca de 2 mil milhões de pessoas, ou seja, permitiria dar de comer 2 vezes a todos os que passam fome no mundo. Na Europa, cerca de 20% do que é produzido não chega a ser consumido, o que corresponde a um desperdício anual de 173 kg per capita.

Já em Portugal, 17% da produção anual é desperdiçada, ou seja, 96,8 kg per capita. Este desperdício equivale a cerca de 50.000 refeições por dia, o que daria para cobrir as necessidades alimentares dos 360 mil portugueses carenciados.

Fonte: FAO

Mas nem tudo são más notícias. Nos últimos anos, tem-se verificado o aumento de ações de combate ao desperdício alimentar. No caso dos supermercados, têm vindo a ser adotadas medidas como a venda de produtos no final de prazo a preços reduzidos e o aproveitamento dos chamados legumes feios para as sopas. Para além disso, os supermercados e os restaurantes têm também feito parcerias com diversas associações, que aproveitam o desperdício para praticar o bem, como é o caso da Refood.

Mas afinal de onde vem o desperdício? De acordo com a FAO, 17% da comida é deitada fora antes de chegar aos consumidores, sendo que 14% perde-se entre o produtor e o distribuidor.

Filipa Machado, a gestora da Refood do Parque das Nações, afirma que desde sempre que as frutas e os legumes “feios” são postos de lado. A data de validade é também um fator que pesa muito no que toca ao desperdício alimentar, isto porque as grandes superfícies são obrigadas a deixar de vender aquilo que ainda se pode comer.

A "fruta feia" e arroz entregue à Refood por causa da data de validade

Mas, para Maria, fundadora do Kitchen Dates, a grande preocupação está no desperdício que se produz todos os dias em casa. De facto, segundo a APED (Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição), em Portugal, os consumidores domésticos são responsáveis por 42% da comida desperdiçada.

Combater o desperdício

Até 2030, a FAO tem como meta reduzir pela metade o desperdício alimentar global per capita nos níveis de retalho e consumidor e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e fornecimento, incluindo perdas pós colheita.

Em Portugal, esta questão é tratada pela Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar. Em 2017, foi definida uma estratégia nacional e um plano de ação de combate ao desperdício alimentar.

A estratégia nacional passa por três grandes pilares: Prevenir, Reduzir e Monitorizar. Algumas medidas do plano de ação de combate ao desperdício alimentar passam por desenvolver ações de sensibilização e de formação, publicar regularmente painéis de estatísticas dos níveis de desperdício alimentar, promover o desenvolvimento de processos inovadores e incentivar a doação de géneros alimentícios.

Ana Cardoso (11583) e Beatriz Peixe (11551)