#noir

No mundo de selfies, onde objeto e ser se confundem como autor e fotografado, feito Narciso no espelho, onde tudo é vulgarizado no momento do clic, é revigorante deitar o olhar sobre as imagens de Izis Cavalcanti.

Em meio a formas, transparências, entre claro escuro, contrastes moldam visões diferentes do que é concreto. O opaco ganha brilho, o macro portentoso se transmuta no micro harmonioso. Detalhes revelam o que o olho vê e não se dá conta; fazendo da natureza concreta fincada nas ruas uma galeria, um museu no asfalto.

Detalhes revelam o que o olho vê e não se dá conta; fazendo da natureza concreta fincada nas ruas uma galeria, um museu no asfalto.

A fotografia deixa de ser o registro fático, abre mão da objetividade e abraça a arte como objeto, como razão de ser. Imagens que nos fazem pensar na importância de (re)aprender a olhar e, sobre tudo, ver além da fotografia. Trata-se de ver o outro, objeto ou ser, com o olhar do outro, se despindo de conceitos, desfazendo o que está feito, oferecendo novas percepções de ver o mundo à volta.

Não é entender a fotografia como arte, e sim, se deixar levar pela imagem e tão somente sentir. Afinal, onde termina a fotografia e começa a arte? Difícil dizer. Melhor sentir. São assim as obras de Izis Cavalcanti. Fotografias como ferramentas para construir histórias em um enredo sem começo, meio e fim.

Izis nos mostra que é possível redescobrir em tanto concreto e aço a poesia que harmoniza formas e contornos. São formas, puramente formas. Poemas concretos in natura. Cálculos estruturais feitos versos de um poema épico e, ao mesmo tempo, futurista.

Na ausência do ser, imagens semeiam a angústia dos espaços vazios, das personagens que aguardamos e não ou nunca chegam. A incerteza da dúvida. O vazio que nos enche de angústia, de tensão. São ausências que fortalecem a presença daqueles que esperamos na sala de jantar, tal qual obras de Hammershøi, onde não há espaço para alegrias e tão pouco tristeza, apenas o cotidiano, simples como é.

Nuances em tons de cinza que parecem afirmar que o mundo talvez não seja tão colorido assim e que nós incorporamos as cores deste mundo, e não somos pretos, brancos ou amarelos, somos cinza.

Talvez aí esteja a ponte entre o trabalho universal de Hammershøi e de Izis.

Em meio a luz incandescente, nesgas de sombra nos dão refúgio, nos escondem como forma de escapar da pressão de viver buscando as cores do arco-íris no mundo cinza.

Sutileza de traços, retas infinitas que se dobram em ângulos e curvas, assim Izis recicla o concreto e o devolve em formas abstratas, descobrindo no concreto um jeito de ser abstrato. Abra a porta. Pegue a trilha. Vamos seguir os rastros e identificar as pegadas de Izis.

Silvio Frota

Atribuição-SemDerivações-SemDerivados

Prévia do livro #noir, com apresentação de Silvio Frota.

Created By
Izis Cavalcanti
Appreciate

Credits:

Photos by Izis Cavalcanti

Made with Adobe Slate

Make your words and images move.

Get Slate

Report Abuse

If you feel that this video content violates the Adobe Terms of Use, you may report this content by filling out this quick form.

To report a Copyright Violation, please follow Section 17 in the Terms of Use.