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O jornalismo na era digital As redes sociais têm inovado cada vez mais a forma de produzir e de consumir notícias, permitindo uma reinvenção contínua do fazer jornalístico e o alcance de diferentes públicos

Por Nina Cristina Wyatt

Desde a sua popularização, a internet tem moldado o comportamento e a forma das pessoas se comunicarem. E com o jornalismo não é diferente. Se antes as redes sociais eram usadas como uma mera reprodução do conteúdo dos jornais impressos ou como forma de divulgação das notícias, hoje, as redes são uma extensão do próprio jornalismo, sendo uma parte indispensável do mesmo.

As transformações frequentes na internet e nas redes sociais, a necessidade de adequar a linguagem jornalística às diferentes redes e a possibilidade de participação e de interação com o público têm exigido do jornalismo uma reinvenção constante, o que reflete nas mudanças sociais e na forma de consumo de conteúdo e de comunicação.

Apesar da ascensão das redes sociais ser recente, as origens da internet são um pouco mais remotas. E para compreender este fenômeno e de que forma as redes sociais passaram a ser adotadas pelo jornalismo é necessário revisitar a história da internet, desde o início até a popularização.

Infográfico: Ingrid Nerys

Novos cenários

As mudanças provocadas pelas redes sociais fizeram com que elas mesmas se multiplicassem e se reinventassem, inovando assim a forma de produção e de consumo de mídia, inclusive dentro do jornalismo. No início da internet, a versão online de um jornal se limitava apenas a transcrever na íntegra o conteúdo do impresso, sem nenhum tipo de adaptação da linguagem.

As redes sociais ajudaram a reverter esse cenário, permitindo também uma divulgação da notícia em diferentes plataformas. O jornalista Wingliton Costa explica que, no entanto, muito além de um repositório de links das notícias, as redes sociais precisam adaptar a linguagem utilizada de acordo com o tipo de usuário e do meio onde a notícia está sendo divulgada, o que acaba também contribuindo para uma maior interação e engajamento do público.

A MELHOR FORMA DE USAR AS REDES SOCIAIS, ENQUANTO UM VEÍCULO DE JORNALISMO, É UTILIZAR DA LINGUAGEM DA REDE SOCIAL PARA CONVERSAR COM O PÚBLICO E AUMENTAR O ALCANCE DA INFORMAÇÃO. NÃO ADIANTA COLOCAR UMA MATÉRIA CHEIA DE TEXTO NO INSTAGRAM, JÁ QUE OS USUÁRIOS NÃO VÃO LER. O IMPORTANTE NESSA REDE É A FOTO”, EXEMPLIFICA.

Costa explica também que as redes sociais permitem um aumento no número de acesso dos jornais e dos portais de notícias, sendo a forma mais comum e mais fácil das pessoas chegarem às informações. “Hoje, o internauta recebe passivamente a notícia em sua rede social. Ele não precisa mais digitar a url do jornal para ler as notícias do dia, já que consegue chegar a elas pela timeline de seu próprio Twitter ou Facebook, por exemplo”, afirma o comunicador.

O poder do engajamento

Esses fatores permitem um maior retorno e engajamento do público que, por meio das redes sociais, pode enviar aos jornais dúvidas, críticas e sugestões. Para a jornalista Rita Benezath, a participação do internauta é um bom indicativo sobre como a notícia tem repercutido na internet, o que pode, inclusive, pautar novas matérias dentro da redação.

Uma vantagem dessa conexão direta com os internautas é que o jornalista pode ter o feedback de forma instantânea. É muito importante ouvi-los porque a matéria pode ter alguma informação errada e eles nos informam sobre isso. As matérias ainda podem ter um determinado mote e as dúvidas enviadas pelos internautas podem gerar motes diferentes e outras pautas para que novas notícias sejam produzidas”, explica a jornalista.

Segundo o jornalista Vitor Ferri, é fundamental monitorar também de que forma o internauta se comporta na redes sociais e quais os temas estão sendo mais citados por eles. “Isso faz com que a gente olhe o comportamento do público como um termômetro do que está acontecendo e, assim, os assuntos mais falados nas redes podem ser melhor trabalhados pela redação, atraindo novos públicos com conteúdos de seu interesse”, explica.

Desafios

Apesar da importância das redes sociais para o fazer jornalístico, Costa afirma que elas não são um fator determinante, mas sim uma ferramenta para facilitar a profissão e adaptá-la aos tempos atuais. Nesse sentido, pensar em novas formas de comunicação e de uso das redes sociais é um dos grandes desafios encontrados pelos profissionais da área.

É preciso acabar com esse mito do jornalista como um ser superior, detentor de toda informação. O jornalista é um trabalhador da informação e as redes sociais são uma forma de entregá-la ao público. Somos operários da notícia e precisamos entender as ferramentas disponíveis para operacionalizar as informações que passamos”, discorre Costa.

Como nas redes sociais as mudanças ocorrem de forma muito rápida, o próprio jornalista precisa ficar atento para conseguir acompanhar essas transformações e adaptar-se a elas. Ferri afirma que é uma reinvenção da profissão e que é necessário reaprender todos os dias.

“É um desafio constante porque temos que entender a cada dia uma rede social nova e um público novo que está chegando e o que está mudando. Cada rede social é diferente e precisamos compreender cada uma a partir de seu público e particularidade”, finaliza.

Para ouvir a entrevista completa do Wingliton Costa, clique abaixo:

O que faz o jornalista de redes sociais?

Por Pollyana Cuel

A rotina do jornalista de redes sociais é bem agitada e exige constante atenção durante todo o dia. Eles trabalham com o Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp. O profissional dessa área possui três funções essenciais: interação, monitoramento e distribuição. Muito além de apenas fazer uma postagem, o jornalista precisa analisar o comportamento dos internautas diante as notícias. Cada atividade realizada pelo público na publicação é importante.

Ao chegar na redação, a primeira atividade do jornalista é o monitoramento de outras redes sociais de jornais locais ou nacionais. O objetivo é identificar quais matérias do dia anterior e daquele momento estão “bombando”, ou seja, quais estão sendo mais comentadas pelos internautas. A analista de redes sociais de A Gazeta, Rita Benezath, explica que após essa verificação externa, são conferidas quais matérias têm ou não no site da A Gazeta. Neste sentido, um fator importante é o engajamento. É necessário verificar as curtidas, comentários e compartilhamentos. O público é o termômetro da redação.

Desta forma, o jornalista acaba por pautar matérias. Ao prosseguir com o monitoramento das redes sociais em que trabalha, ele analisa também as interações dos internautas, desde comentários às mensagens enviadas. A partir dessa verificação, são identificadas as possíveis dúvidas e comentários que podem virar novas matérias. Esse envolvimento das pessoas com os jornais nas redes sociais é chamado de jornalismo participativo.

Segundo o artigo “Utilização Do Aplicativo Instagram Como Dispositivo Jornalístico Participativo No Contemporâneo: Mostra De Um Caso”, o jornalismo participativo acontece quando o usuário do Instagram, por exemplo, “publica uma foto, ocorre a divulgação da mesma e ele se torna um autor que pode disseminar uma informação podendo vir, também, a conter caráter jornalístico”.

Enviar fotos e vídeos para as redações se tornou algo muito comum. Essas fotos, de acordo com o artigo, costumam ser registros da comunidade do usuário, mas, às vezes, podem vir a registrar algum acidente ou fenômeno que ocorreu no local onde estava. O jornalismo participativo se faz importante pois, desta forma, o jornalista possui olhos mesmo em lugares onde ele não está.

O editor adjunto de distribuição e redes sociais de A Gazeta, Vitor Ferri, explica que, na hora da distribuição dessas notícias, é necessário pensar em diferentes formas de levar o conteúdo para as redes sociais.

“Cada rede social trabalha de um jeito e tem um público diferenciado. O público reage de determinada a maneira, então a gente tem que de olho nisso. A gente elabora também formas de distribuição de conteúdo. Nas redes sociais, como temos um monte de possibilidades, temos que ficar ligados em como determinado conteúdo pode ser trabalhado”, explica Ferri.

As redes sociais exigem um time diferente dos sites de notícias. A analista Rita Benezath explica que um dos maiores desafios do jornalista de redes é ser criativo a cada 15-20 minutos. É necessário identificar na matéria do site o que mais chama a atenção do internauta, adaptar a linguagem para cada plataforma e escolher qual a melhor foto para prender o internauta.

Ao longo do dia até o final do expediente, o jornalista continua monitorando as redes sociais para pautar a redação. Isso faz com que o trabalho de um jornalista das redes sociais seja de extrema importância, afinal, ele acompanha o ritmo do mundo da internet, fazendo com que o jornalismo seja cada vez mais atual e moderno.

Assista a entrevista completa do Vitor Ferri:

A influência do leitor de redes sociais para a publicação de notícias

Por Lara Mireny

Diante de um público que marca cada vez mais presença nas redes sociais, os meios de comunicação passaram a utilizar novas linguagens e funcionalidades para explorar o ambiente online e, desse modo, atrair a atenção do leitor.

Segundo o Relatório Digital in 2019, 66% da população brasileira acessa as redes sociais. No mundo, estima-se 2 milhões de usuários somente no Facebook. De acordo com as informações, o Brasil é considerado o terceiro país mais ativo no Facebook, perdendo apenas para os Estados Unidos e para a Índia.

Sabendo disso, as redes sociais têm se tornado uma ferramenta de disseminação de informações dos veículos de comunicação. É com a convergência midiática que uma matéria passa a ser disponibilizada em diferentes formatos e plataformas. Logo, favorece a propagação de informações de maneira inovadora, atraente e criativa, o que permite, portanto, maior alcance e interesse a um público que utiliza as plataformas digitais cotidianamente.

Fake News

Infográfico: Ingrid Nerys

Em meio à produção massiva de informações, muitas pessoas, sem formação jornalística, participam da realização e divulgação de notícias no mundo digital. Contudo, a maioria das informações não é verificada, o que torna propensa à produção das chamadas fake news.

De acordo com o relatório da Trust in News da Kantar Media divulgada pela Kantar Media, em 2019, “entre os 8.000 indivíduos pesquisados no Brasil, França, Reino Unido e Estados Unidos da América, apenas um em cada três reconhece sites de mídia social e aplicativos de mensagens como uma fonte confiável de notícias”.

Para a jornalista Christa Berger, esse fenômeno não deve estar vinculado ao jornalismo. Dessa forma, Christa se justifica utilizando três pontos que acredita serem essenciais para a formação do profissional em comunicação.

Porque 1. não corresponde ao sentido de notícia, 2. não é realizado por profissionais nas condições de produção jornalística e, 3. não tem compromisso com o que justifica o jornalismo que é a defesa da democracia”, finaliza.

Apesar do cenário atual da disseminação de notícias falsas, há pessoas que se preocupam em verificar algo antes de compartilhar. Para contribuir com o rompimento da distribuição de fake news, algumas iniciativas têm reunido jornalistas para apurar informações, como é o caso do Projeto Comprova, veículo liderado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Em suma, ao perceber que o consumo de informações virtuais está presente na rotina do brasileiro a cada momento do dia, as redes sociais passam a ter um papel relevante para os veículos de comunicação, visto que a preferência é maior ao acesso de notícias pelos smartphones, notebooks e tablets. Assim, o caráter multimidiático, a instantaneidade, a hipertextualidade, a interatividade, bem como a capacidade de armazenar publicações com livre acesso e alta capacidade de espaço demonstram a vantagem do ambiente virtual.

Pauta e edição: Isabella Arruda

Textos: Lara Mireny, Nina Wyatt e Pollyana Cuel

Design: Ingrid Nerys