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Senepol: revolução na pecuária brasileira Associação de criadores estima que rebanho pode crescer até 30% e chegar a 100 mil animais registrados no Brasil no centenário da raça

Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

01/01/2018 - SÃO PAULO - Uma raça de gado que chegou ao Brasil há 17 anos tem ganhado espaço nos pastos brasileiros com características capazes de revolucionar a pecuária tropical: a possibilidade de elevar a produtividade a campo e intensificar a produção mesmo em regiões de extremo calor.

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É o senepol, bovino originário da Ilha de Saint Croix, no Caribe. O rebanho da raça subiu de 24 mil animais registrados em 2012 para 76 mil em 2017. É a que mais cresceu no Brasil no período, com avanço de 216%.

A Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos Senepol (ABCB Senepol) estima um crescimento de 30% no rebanho para 2018, ano que marca o centenário da raça no mundo. A ideia é chegar a 100 mil animais registrados e ter mil associados até 2019.
O nome senepol deriva das palavras Senegal, de onde veio o gado n'dama, e de red poll, a parte britânica do gado composto. Fruto desse cruzamento, a raça nasceu em 1918, na Ilha de Saint Croix, no Mar do Caribe, após dezenas de testes de colonizadores ingleses. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

Por trás dos números promissores, há um consenso: o senepol só cresceu porque pode ser lucrativo. Fruto do cruzamento entre o gado senegalês n’dama e do britânico red poll, ele é um taurino resistente e adaptado ao clima tropical, onde animais de origem europeia costumam ter dificuldades para produzir.

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“O senepol foi feito para o Brasil”, diz o pecuarista Ricardo Arantes, filho de João Arantes Júnior, o responsável por trazer os primeiros animais da raça para o Brasil, em 2000.

“O que era uma loucura do meu pai em acreditar em uma raça que ninguém conhecia, na verdade provou que ele era um visionário”, diz Ricardo, que é proprietário da Senepol Nova Vida com o irmão, Neto Arantes.

Neto Arantes toca com o irmão Ricardo a Senepol Nova Vida, pioneira na produção de senepol no Brasil. Na imagem, fazenda da família em Quadra, interior de São Paulo. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

A Nova Vida é um dos cinco maiores criatórios de senepol do mundo, com pelo menos 1.300 animais puros. Eles vendem touros e vacas doadoras de embriões de sua seleção genética de 18 anos. O objetivo dos irmãos é “povoar” o Brasil com a raça.

Ricardo Arantes gosta muito de repetir uma frase de seu pai, já falecido: o senepol é a solução definitiva para o cruzamento industrial no Brasil. Cruzamento é, em linhas gerais, a mistura entre bovinos zebuínos e taurinos. No cruzamento, o animal híbrido adquire as principais qualidades de cada raça. Índices como idade de abate, qualidade da carne e rendimento de carcaça podem melhorar em até 30%.

Evolução do rebanho de senepol no País ao longo dos anos. Brasil é o maior criador do gado no planeta.

Essa prática pode ser feita usando inseminação artificial, mas requer tecnologia: infraestrutura adaptada, a presença de um veterinário e um projeto coordenado. E onde entra o senepol na história? Essa raça possibilita o cruzamento no pasto, sem ter que mudar o manejo da fazenda, especialmente no Brasil, onde há criações extensivas com dezenas de milhares de animais.

“O cruzamento possibilita ter todos os ganhos que o animal permite de uma forma simples: usar o touro para cobrir a vacada a campo, inclusive em regiões extremas de calor”, explica o veterinário Neto Garcia, proprietário da Senepol 3G, de Barretos-SP. “É inevitável para agregar valor e ter rentabilidade maior”, afirma ele, que tem 800 animais senepol puros.
Rusticidade e adaptabilidade ao clima tropical são duas características que chamam atenção no bovino. A pelagem curta auxilia no processo. Fotos: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

Neto Garcia conheceu criatórios de senepol nos Estados Unidos nos anos 2000 e gostou da rusticidade que encontrou. “Vi animais numa época bem fria do ano se alimentando com feno, e produzindo bem”, relembra. “Depois, em um período mais quente, com a fazenda quase toda inundada, os animais com água até a barriga em um calor intenso, se comportando e produzindo muito bem”.

Novo no ramo. Um dos 800 criadores de senepol do Brasil veio de um ramo um pouco diferente: a música. É o cantor Almir Sater, criador de clássicos da música brasileira como Tocando em Frente e Um Violeiro Toca.

Ele conheceu o senepol em 2007 em uma feira pecuária realizada em São Paulo. Gostou do que viu e adquiriu os primeiros animais para atender sua própria demanda de touros. Começou ressabiado, devagar, e foi observando os resultados. "Você sabe que o pecuarista espera o vizinho fazer para ele fazer, né? Se funciona em algum lugar, aí vai lá e faz", explica.

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Antes de conhecer o senepol, Almir cruzava nelore e angus fazendo inseminação artificial, mas diz que era muito trabalhoso fazer isso na região pantaneira. Com o novo bovino, capaz de enxertar as vacas no pasto, se mostra satisfeito.

"O sonho de todo pecuarista é esse animal que possa cobrir a campo. E se um animal trabalha bem no Pantanal, então ele vai bem em qualquer lugar", afirma Almir Sater.

Ele usa os touros senepol para fazer um tricross com vacas filhas de nelore e angus. As fêmeas são para melhorar seu próprio rebanho, de 100 animais puros. Em 2017 e 2018, vai vender cerca de 150 touros puros.

O Brasil e a produção de carnes no mundo

Com 220 milhões de bovinos, o Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do planeta. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o País produz 8% da carne consumida no mundo e tem metade do rebanho da América Latina. E há muito potencial para aumentar. Em 2000, as exportações de carne bovina representaram US$ 503 milhões, enquanto em 2016 ultrapassaram US$ 4 bilhões.

Os estudos mais recentes da FAO indicam que o planeta terá 10 bilhões de pessoas em 2050. Para atender a demanda crescente por alimentos, o volume produzido terá de crescer pelo menos 70%. E esse aumento passa, inevitavelmente, pelo Brasil, diz Deyanira Barreto, especialista em pecuária da FAO para a América Latina.

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Segundo ela, a urbanização e o aumento da renda em países em desenvolvimento têm incentivado o maior consumo de proteínas. “Isso exigirá um grande aumento da produção de carne e o Brasil, com sua grande dimensão, é um ator chave”, diz.

O pecuarista Neto Arantes, da Nova Vida, vê aí uma “chance enorme” de aproveitar a oportunidade de atender a demanda global por alimentos. “A bola da vez está com o Brasil”, afirma. “Vejo uma longa caminhada ascendente do senepol até pelo menos 2050”.

Os criadores de senepol são estimulados a mensurar e melhorar sempre as qualidades de seu rebanho. Isso proporciona maior conhecimento sobre a raça, ainda jovem, e melhoria contínua. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

Mensurar para melhorar

O presidente ABCB Senepol, Pedro Crosara, comenta que a entidade tem promovido ações ao longo de toda a cadeia produtiva. Uma delas é aumentar a divulgação com consumidores, frigoríficos e nichos de mercado. A ideia é fazer crescer a procura pela carne de senepol, passando pelos supermercados, distribuidores, frigoríficos, confinadores e chegar aos proprietários dos animais.

Em 2016, o tradicional restaurante Pobre Juan, de São Paulo, promoveu uma degustação com carne de senepol em suas lojas. Na ocasião, chefs renomados e nomes importantes do cenário gastronômico brasileiro conheceram a carne. No final, elogiaram a maciez e o sabor do senepol, abrindo a porta para um mercado promissor.

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Crosara admite que o foco da raça é produzir reprodutores para a monta a campo, mas orienta criadores a se preocuparem em selecionar animais ao longo da cadeia, com diferentes aptidões, como qualidade de carne. “Temos que pensar que tem um consumidor final que vai querer esse produto”.

“O produtor tem que avaliar sempre e analisar tudo. O animal vale o que pesa e o que ele traz para cada criador”, diz Pedro Crosara, presidente da ABCB Senepol.
Muitos criadores conseguiram reduzir o ciclo de abate usando animais senepol nos cruzamentos. Com as fêmeas, isso pode chegar a até seis meses, segundo a Scot Consultoria. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Clho no Campo

Com o objetivo de oferecer aos criadores informações sobre o valor genético dos animais e estimular a evolução da raça, a ABCB Senepol lançou em 2017 o Programa de Melhoramento Genético do Senepol (PMGS). O programa é composto de quatro pilares: registro genealógico, avaliações genéticas, provas zootécnicas e seleção genômica.

Um dos resultados do PMGS será disponibilizar todas as informações de provas e avaliações em um único banco de dados, o Arquivo Zootécnico Nacional da raça senepol. Em relação à genômica, que é a análise direta do DNA do animal, a meta é fornecer mais subsídios para a seleção dos animais. Em breve, será possível agregar características novas ao senepol como maior eficiência alimentar e melhor qualidade de carcaça, além de incrementar outras aptidões já conhecidas, como adaptação ao clima e pelagem curta.

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No futuro, com o avanço das qualidades do rebanho, a meta da ABCB Senepol é auditar criatórios e certificar os melhores animais para exportar a genética para o mundo. Também há planos para certificar a carne meio-sangue senepol e obter bonificações com os abates desses animais.

Entre agosto e outubro de 2017, a Scot Consultoria realizou uma pesquisa em 20 estados com a indústria frigorífica e identificou que alguns criadores de senepol já têm recebido bonificação pelas qualidades dos animais. Foram pesquisados 304 criadores dos segmentos de cria, recria, engorda e ciclo completo. As maiores bonificações ocorreram nas vendas de novilhas (23%), boi magro (18%) e bezerro (17,1%).

Os bezerros senepol nascem pequenos, evitando problemas no parto, e podem ser até 30% mais pesados que outros bovinos no momento da desmama - alguns chegam até 230 quilos. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

De novidade para realidade

É com foco nos números que a raça cresce ao redor do País. O criador Junior Fernandes, o primeiro a trazer embriões de senepol ao Brasil, no início dos anos 2000, é famoso no setor por ter criado o Programa Safiras, o maior programa de avaliação de fêmeas senepol do mundo. Ele analisa e seleciona animais “superiores” para identificar os melhores da raça, o que chama de “safiras” do senepol.

Mais de duas mil novilhas já foram avaliadas com foco em características como precocidade, ganho de peso e qualidade da carcaça. “O mercado a cada dia fica mais exigente com a qualidade. É preciso se preocupar e trabalhar sério essa avaliação”, diz ele, que é proprietário da Senepol da Grama.

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Em Pirajuí-SP, Fernandes tem uma propriedade com 1.000 animais puros, sendo um dos cinco principais criadores do Brasil. Ele acredita que a raça tem um futuro promissor.

“Tem muita gente de todas as regiões entrando no ramo. O senepol deixou de ser uma novidade para ser uma realidade”, aposta o criador Júnior Fernandes.
Senepol tem glândulas sudoríparas mais eficientes, o que o torna mais adaptado ao clima tropical. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

O segredo da adaptabilidade

Um estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em parceria com a Senepol da Grama revelou a razão de o senepol, apesar de ser um taurino, ser bastante tolerante ao clima quente. Após analisar a capacidade de transpiração de animais angus (taurino), senepol (taurino) e nelore (zebuíno) o resultado mostrou que cerca de 90% das glândulas sudoríparas do boi caribenho são iguais às de um nelore, e não ao de angus, como se esperava. “Foi surpreendente”, diz Junior Fernandes.

“Essas glândulas são mais eficientes, maiores e têm maior capacidade de transpiração”, resume o zootecnista Celso Menezes, superintendente da ABCB Senepol. Ele explica que os bovinos perdem calor de duas formas: pela respiração, com 20% desse total, e pela transpiração, com 80%. Por isso, as glândulas são importantes.

A docilidade é uma característica que agrada criadores, especialmente pelo fato de o animal não ter chifres. “Temos um custo menor com manutenção de cerca e de curral. Isso reflete também no bolso”, diz Neto Garcia, da Senepol 3G. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

No mundo

Não é só no Brasil que o senepol tem crescido. Na América do Sul, os rebanhos de destaques estão no Paraguai, na Colômbia e na Venezuela. Ele também chegou em outros continentes. Com mais de 5 mil animais, o senepol representa 3% do rebanho da África do Sul, onde há 284 mil bovinos, segundo dados do governo local.

O consultor e pesquisador Albert Loubser, do PLAAS, um dos mais importantes centros de estudos agrários da África do Sul, diz que que as raças que mais avançam no país são as que se adequaram ao clima local, como o senepol. “Ele se encaixa muito bem na indústria de gado sul-africana por ser bem adaptado às condições naturais daqui”, diz.

Daniel Nieuwoudt, presidente da associação de criadores da raça na África do Sul, diz que a popularidade do senepol cresceu “imensamente” desde 2003, quando os animais chegaram lá. Hoje, estão em todas as províncias da África do Sul e em países vizinhos, como Namíbia e Botswana. "O senepol pode produzir carne em boa quantidade e alta qualidade nas condições que o nosso mercado exige", diz.

Ele diz que o fato de os criadores terem subido de 5 para mais de 40 em pouco tempo faz do senepol uma das raças de maior crescimento no país. “É preciso considerar que isso ocorreu em um período de estagnação e até de declínio nos rebanhos”, afirma, citando a seca extrema que atingiu o país nos últimos três anos.

Senepol completa 100 anos de existência em 2018 com objetivos ambiciosos no Brasil. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

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