Loading

"RECONCILIAÇÃO: BELEZA NA FRAGILIDADE POR BRUNO PINTO

Existe, de facto, beleza na fragilidade. Em cada tropeço há uma oportunidade de superação, em cada noite a certeza de uma alvorada. Isto no-lo é dito também pela doutrina, vida e culto da Igreja, mas, muito concretamente, na celebração do sacramento da reconciliação. A fragilidade torna-se bela se, ao ser reconhecida e assumida, se transforma em motivo de transfiguração verdadeira e sincera. Vejamos:

«A pérola é esplêndida e preciosa. Nasce da dor. Nasce quando uma ostra é ferida. Quando um corpo estranho […] penetra no seu interior e a habita, a concha começa a produzir uma substância (a madrepérola) com que o cobre para proteger o seu corpo invadido. No fim, ter-se-á formado uma bela pérola, brilhante e valiosa. Se não for ferida, a ostra nunca poderá produzir pérolas, porque a pérola é uma ferida cicatrizada.»

(Paolo Scquizzato, in «O elogio da imperfeição»)

No meio de tantas urgências que o mundo clama e reclama, talvez a reconciliação seja a necessidade mais urgente, ainda que silenciosa, da condição humana, uma vez que esta se revela verdadeiramente libertadora.

A imagem a que Scquizzato recorre - da ostra ferida que dá origem à pérola- revela, claramente, o que é experienciar a reconciliação, mas, sobretudo, o que é viver a partir dela: desejar acolher a misericórdia de Deus e abeirar-se dela é reconhecer que somos portadores de feridas e fragilidades. Todavia, é efetivamente destas mesmas fragilidades e feridas que podem nascer belas pérolas como frutos de um caminho de progressiva conversão, a que o poeta Frei José Augusto Mourão se refere como “viagem imóvel”.

De facto, todos experimentamos a fragilidade da natureza humana, pisamos o risco e a tentação, cometemos erros… São tudo feridas que aguardam por essa substância cicatrizante que nada mais é senão o amor. A resposta do amor manifesta-se como sendo a única possibilidade que temos para ver as nossas feridas tornarem-se belas pérolas, isto é, tesouros da nossa própria vida.

Assim, perceber a importância do Sacramento da Reconciliação é como que uma aceitação do que a própria vida nos exige: um enérgico sim à luta de ser quem se é sem que, no entanto, se perca o desejo de renovação e de conversão.

Deste modo, talvez nos falte aquelas atitudes da mulher da parábola da dracma perdida (Lc 15, 8-10). Sobre tais atitudes, afirma D. José Tolentino de Mendonça: «se não varrer a minha casa, ela deixa de ser habitável, deixa de ser minha […] não se trata de sair do que sou ou de buscar na exterioridade a solução, mas de abrir as janelas e deixar o ar de Deus entrar, deixar circular o vento do Espírito». Ora, reconciliar-se significa isto mesmo: varrer as poeiras e desordens da nossa casa, procurar cuidadosamente a conversão e, por fim, tendo-a já encontrado, alegrar-se com os irmãos num salutar reencontro com a inteireza. Sim, porque é precisamente de inteireza que se trata. A reconciliação desafia-nos a ser inteiros, desmontando a nossa sede de ser grandes («Para ser grande sê inteiro», lembra-nos Fernando Pessoa).

Posto isto, falta ainda olhar a reconciliação na perspetiva relacional, pois esta não se vive apenas individualmente, exige relação com o outro. Talvez seja esta a dimensão mais bela do sacramento, e até da própria existência humana, que se diz dependente de um Tu para que haja um Eu.

Portanto, parece-me que o Papa Francisco visa ir mais longe ao tomar a Reconciliação por intenção de oração para este mês. Isto é, a mancha do erro não causa apenas dano à pesssoa, mas também a todas as pessoas que o seu ato envolve. A reconciliação, numa dimensão pessoal é, sem sombra de dúvida, essencial, mas não deixa de ser o primeiro passo de uma caminhada maior: a reconciliação dos irmãos, das comunidades, das nações, das Igrejas…

Que, de facto, a vida de cada um de nós seja um lugar de beleza, ainda que frágil, na esteira da vivência quaresmal que pré-anuncia já o canto vitorioso, mas, sobretudo, libertador, da manhã de Páscoa.

Bruno Pinto
Created By
Paróquia de Fafe Santa Eulália
Appreciate