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Desemprego no Algarve aumenta. E como vai ser até ao fim da pandemia? Reportagem: João Cunha

O número de desempregados inscritos nos centros de emprego do Algarve aumentou 74,4% em fevereiro em termos homólogos e desceu 0,33% face a janeiro. São agora mais de 33.500 as pessoas desempregadas. A muitas delas a pandemia levou o sustento, obtido através do trabalho no setor do turismo no Algarve. Vivem sufocados com as incertezas do futuro. Desesperados, até, em muitos casos. Nunca imaginaram estar a atravessar uma situação como a que vivem desde há um ano. Subsistem graças à ajuda da Igreja, das autarquias e dos apoios estatais. Mas os apoios do Estado têm os dias contados e estão, em muitos casos, prestes a terminar. O fim dos subsídios de desemprego, das moratórias bancárias e de outros apoios, sobretudo na retoma de atividade, faz com que o futuro seja ainda nebuloso e incerto. Um cinzento escuro com pouca nitidez.

Donativos de alimentos na Cáritas de Faro

Pobreza e fome

Junto à porta que dá acesso ao refeitório social do Centro Paroquial de Quarteira, a partir do qual se distribui comida devidamente confecionada e já embalada, forma-se ao final da manhã uma fila de algumas dezenas de pessoas. Elvira Reis sempre trabalhou em hotelaria e, como muitos naquele setor, sobretudo no Algarve, perdeu o emprego. Ocupava algum tempo livre, mesmo quando trabalhava, para vender em feiras de velharias, o que lhe servia para compor o orçamento. Mas nem isso agora é possível. Recebe o subsídio de desemprego, com o qual sobrevive. Aos 57 anos, vê-se numa situação nunca imaginada: estar numa fila para poder receber um prato de comida.

"A vida dá voltas e nós não sabemos o dia de amanhã. Hoje podemos estar bem e amanhã podemos estar no fundo do poço”, diz, emocionada. “Acho que não vamos ter um verão em condições”, vaticina Elvira. “Por muito trabalho que haja, há muita gente à procura, muita gente desempregada. E torna-se complicado, porque acho que isto, pelo menos durante os próximos dois anos, não vai melhorar. Duvido muito”. Elvira tem duas filhas, ambas a trabalhar em Inglaterra. “Têm o trabalho delas, têm tudo. De vez em quando, são elas que me enviam alguma coisa”. A partir de setembro, Elvira perde o direito ao subsídio de desemprego.

Refeitório Social de Quarteira.

Mais à frente numa fila que continua a aumentar está Gabriel Coimbra. A refeição que vem levantar é essencial. Formou-se em hotelaria e desde há seis anos que sempre conseguiu trabalho nos hotéis do Algarve. Vive em Quarteira com a mulher, que também trabalhava no mesmo ramo. É o subsídio de desemprego que ainda recebe que lhe permite subsistir. E não chega para tudo. A manta é demasiado curta para o corpo que tem para cobrir. “Quase todo o meu fundo de desemprego vai para a casa”, explica Gabriel, que tem procurado emprego em outras áreas de atividade, como a construção civil, agricultura, reposição em grandes superfícies. “Seja o que for”, diz.

Noutra porta do edifício, onde funciona o refeitório social, está uma outra mulher. Aqui surgirá sem nome, porque a pobreza e o sofrimento a fazem pedir o anonimato. Vestida de negro, dos pés à cabeça, em luto pela morte recente da mãe e com o fardo do desemprego que dura há meses. O mesmo mal abateu-se sobre quase todo o seu agregado familiar. Não vem buscar comida já preparada, como outros da fila continuamente crescente. Abastece-se de um cabaz de alimentos que a ajuda a enfrentar algumas das dificuldades. "Mensalmente venho buscar este cabaz, porque estou no fundo de desemprego”, explica. Vive com a nora e dois filhos.

António Cova, gestor do Refeitório Social de Quarteira há 25 anos.

“O mais velho, que anda ao mar, ontem não trouxe pesca nenhuma. E precisamos de alimento”. São os 370 euros do fundo de desemprego desta mulher que servem para todos. Mal dá para pagar as contas. O dia a dia é de lágrimas e de pedidos de ajuda. “Deitar a chorar e levantar a chorar. Ir bater à porta de uma tia, a pedir um bocado de pão. Ir à porta de outra, a saber se tem um bocado de carne. E assim sucessivamente…”.

Admite que, aos 53 anos, nunca pensou poder vir a atravessar momentos tão duros e dificuldades tão profundas. “Não, não, não… Sempre tive o meu ordenado. A minha nora sempre teve o ordenado dela. Sempre tivemos as nossas coisinhas, fosse pouco ou muito. Dava para orientar”. Mas, agora, deixou de dar. Agora é sobreviver a cada dia, sem possibilidade de traçar planos.

Atento à conversa está António Cova, que coordena, desde a sua fundação, o Refeitório Social do Centro Paroquial de Quarteira. Nunca assistiu a um período de “tanta carência e necessidade como o que se está a viver neste momento. Servimos diariamente 236 pessoas ativas, mas nem todos cá vêm. Tenho próximo de 180 refeições diárias servidas”. Em relação há quatro ou cinco anos, “subiu uma média de 40%”.

Pe. José Campôa, responsável pelo Centro Paroquial de Quarteira.

E muitos há que não se atrevem a pedir ajuda, impedidos pela pobreza envergonhada. O padre José Campôa, responsável pelo Centro Paroquial de Quarteira, a quem pertence o refeitório social, sabe bem disso. “Aquelas pessoas mais envergonhadas, que não recorrem aqui por vergonha, muitas vezes batem à minha porta para saber se podem usufruir de alguma coisa”. O número de pedidos de ajuda tem aumentado cada vez mais.

A situação é de tal forma difícil que cria mesmo ansiedade e receio a quem tem a responsabilidade de garantir este sustento. Sobretudo se a situação se agravar. “Receio que as coisas possam crescer muito mais e que nós não consigamos dar resposta. Não sabemos o que está pela frente e isso causa-nos alguma ansiedade. Mas com esperança”. Há emoção nas palavras do Padre Campôa. “Quando chegamos aqui e, todos os dias, vemos estas pessoas a precisar de ajuda, isso emociona-nos muito. Também pelo que as pessoas nos vêm depois dizer, ao referir que é esta casa que as ajuda a sobreviver. E são as pessoas que aqui trabalham que o fazem, com grande carinho. E isso de certa maneira também nos cria alguma emoção.”

Esse sentimento espelha-se na cara de Elisabete Flores. Sentada numa caixa vazia de fruta, junto à entrada para o refeitório social, bloqueada com uma mesa de plástico onde são colocadas as refeições para levar para casa e um saco com um reforço para a noite. De alguidar ao colo, Elisabete vai colocando as batatas e cenouras que, há pelo menos duas horas, vai descascando. A obesidade mórbida impede-a de trabalhar. Mas ofereceu-se como voluntária. E foi no refeitório social e no centro paroquial que encontrou a ajuda de que necessita e que resume de forma simples: “Como a asa que a galinha tem para pôr os pintos, eles têm todos uma mão para dar à gente”.

Pelo Algarve há outras mãos dispostas a ajudar. Junto ao edifício da Cáritas de Faro é dia de entrega de cabazes alimentares e roupa. Encostado à parede exterior do edifício, com alguns sacos de compras dobrados que guarda debaixo do braço, está um brasileiro de 65 anos, casado com uma portuguesa. Depois da construção civil, quando há cinco anos chegou a Portugal, passou a copeiro na restauração. Tinha trabalho fixo, com rendimento certo, ao qual juntava as gorjetas. Só com as gratificações, garante, conseguia pagar muitas das despesas. Vivia uma vida humilde, mas sem desassossegos. A pandemia chegou e obrigou-o a ficar em casa.

Está em “lay-off”: recebe parte do vencimento a que tinha direito. E sem as tais gratificações, o dinheiro já não chega para tudo. “As minhas despesas são água, luz e apartamento. Este mês não paguei nem água nem luz. Hoje vou a uma reunião na Segurança Social para saber como me podem ajudar, porque eu estou desesperado”, diz.

Há quase um ano que não vai a um supermercado fazer compras, porque a Cáritas lhe garante essa ajuda alimentar. Tem saúde e não está a trabalhar, o que o deixa desesperado e profundamente insatisfeito. “Estou a viver de ajudas. Eu tenho saúde, trabalho que sou um 'bicho', mas o meu dinheiro não dá nem para pagar as minhas obrigações. Pago o arrendamento, a água e a luz, quando posso, e logo o dinheiro acaba". A situação que atravessa é tal que até já pensou em regressar ao Brasil, onde tem os pais, irmãos e filhas. “Aqui só tenho Deus e a minha esposa. Se piorar mais, como é que eu vou ficar?”.

A Igreja na linha da frente

Praticamente desde o início da pandemia que a Cáritas tem registado um aumento dos pedidos de ajuda. Nos primeiros meses, o aumento foi de mais de 60%. Carlos Oliveira, o presidente da Cáritas Algarve, dá um exemplo concreto desse crescimento de necessidade: “o normal seria ajudarmos 18 ou 20 famílias. Na última semana atendemos 43”.

Ajuda alimentar e de vestuário na Cáritas de Faro.

A ajuda vem de particulares, autarquias, instituições e empresas, que minimizam as necessidades alimentares dos que mais precisam. Desde agosto que uma nota pastoral da diocese do Algarve alertou para a necessidade de dar mais atenção a quem está numa situação económica tão difícil que nem consegue garantir alimentos. “Linha da frente para vencer a indiferença”, assim se chama essa nota pastoral, que está na génese de três campanhas, direcionadas a crianças, famílias e estudantes universitários, que muito têm ajudado a minorar as dificuldades de centenas e centenas de pessoas.

Carlos Oliveira, Presidente da Cáritas Algarve.

A Cáritas Diocesana rapidamente percebeu que, além de bens alimentares, as famílias enfrentavam também uma necessidade monetária, para pagar rendas de casa e contas. “Disponibilizámos desde logo um valor de cerca de 50 mil euros para fazer face aos pagamentos das rendas de casa, que é aquilo que neste momento tem sido mais pedido à Cáritas Diocesana, para além da alimentação”, revela Carlos Oliveira. Mas a verba em causa pode ser insuficiente.

A preocupação da Cáritas prende-se com o desemprego que pode vir a aumentar, se a maioria das empresas do setor do turismo não conseguir retomar a atividade. Nesse cenário, vão ser precisos mais apoios sociais para responder às necessidades das populações. “Estamos com muito receio de que a maioria das empresas desta área não consiga subsistir. E nessa altura, já não teremos trabalhadores em 'lay-off'. Passamos a ter trabalhadores desempregados, porque a empresa desapareceu, o restaurante desapareceu ou o hotel só admitiu metade dos habituais trabalhadores. E a consequência de tudo isto vai ser um bocadinho mais além”. Não é preciso esperar para que se chegue a essa situação. Porque já há empresas nessa realidade.

Tiago Jacinto, do Sindicato de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve.

Empresas em risco e trabalhadores sem salários

Na Baixa de Faro, na Rua de Santo António, um grupo de trabalhadores está à porta de uma das mais conhecidas pastelarias da cidade. Fundada em 1953, a Gardy era local de culto na capital algarvia, devido à doçaria regional que orgulhosamente dispunha nas montras. Os funcionários reúnem-se na rua com um responsável sindical do setor. Há meses que muitos deles, há décadas a trabalhar naquele estabelecimento, estão sem salário. É o caso de Maria Baltazar, forçada a recorrer a empréstimos de familiares e amigos para conseguir sobreviver. “Estamos sem receber os vencimentos e os subsídios do ano passado. E estamos sem receber, em casa, estes meses todos. O patrão diz que não tem dinheiro”. Seria estranho, tendo em conta que podia ter concorrido às ajudas do Estado. Não tão estranho, explica Elsa Silva, uma outra funcionária. “Mas se o patrão deve ao fisco, não pode concorrer à ajuda do estado, correto?”.

Talvez possa ser esse o caso, como indica Tiago Jacinto, coordenador do Sindicato de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve. “Deduzimos nós que se a empresa não recorreu é porque terá dívidas à Segurança Social ou às Finanças. Não estamos a ver outra explicação”, sublinha o sindicalista, que faz questão de referir que, já antes da pandemia, eram muitas as situações em que os trabalhadores pediam ajuda ao sindicato. “Com a pandemia, a situação agravou-se e os pedidos de ajuda aumentaram, porque a situação ficou muito difícil para os trabalhadores”. E deverá agravar-se ainda mais.

Apesar das medidas de apoio às empresas e aos trabalhadores, Tiago Jacinto acredita que o desemprego vai continuar a aumentar. “Desde o início que temos dito que o Governo devia tomar outro tipo de medidas. Porque nós estamos a ver que o 'lay-off' simplificado e o apoio extraordinário à retoma progressiva não estão a impedir o desemprego. Vamos ver o que vai acontecer quando a atividade voltar a funcionar, porque as empresas que estão a receber apoios do estado podem, passados 60 dias, promover despedimentos coletivos ou por extinção do posto de trabalho”. Por isso, o sindicato apela ao Governo para que altere a lei, no sentido de evitar essa situação. “Mesmo numa situação de retoma da atividade económica, muitos trabalhadores vão estar confrontados com a situação de despedimento”, diz Tiago Jacinto.

Desemprego, um problema crónico da região

Madalena Feu, delegada regional do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

Desde março do ano passado, o Algarve entrou num regime de contraciclo no que se refere aos números do desemprego - e viu-os aumentar consideravelmente. “Em 2020, de fevereiro para março nós aumentámos o desemprego, relativamente ao homólogo, em 41,4%. Mas em abril o aumento foi de 124% e em maio já estávamos a chegar aos 200% e em junho 231%”, explica Madalena Feu, delegada regional do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

Mas a partir de junho do ano passado, a região teve um comportamento diferente face aos meses anteriores, devido ao levantamento do confinamento. Os números do desemprego baixaram, graças ao dinamismo económico. Mas voltaram a aumentar, como seria expectável, desde o fim do verão. “Posso avançar já que, relativamente a fevereiro, diminuímos o desemprego em 0,33 % face a janeiro, mas face ao período homólogo (fevereiro do ano passado), aumentámos 74,4%. Estamos a falar de um total de 33.571 pessoas desempregadas”.

Não é o número mais alto de desemprego na região. Em fevereiro de 2013, eram 38.059 os desempregados no Algarve. Madalena Feu está convencida que esses números não serão alcançados, porque acredita, por um lado, na esperança dada pelo plano de vacinação contra a Covid-19 e, por outro lado, nas medidas públicas que “muito contribuíram para mitigar e controlar o disparo do desemprego, de forma descontrolada”.

Acresce a estes sinais positivos a gestão por parte do Instituto do Emprego e Formação Profissional do incentivo extraordinário à retoma de atividade, que consiste num apoio financeiro para a manutenção do emprego. Praticamente todas as 2659 candidaturas foram aprovadas. E só aqui, houve milhares de postos de trabalho salvaguardados. “Estamos a falar de 16.630 postos de trabalho que estão a ser apoiados por esta medida, que se perspetiva que sejam para manter”.

As empresas precisam de "músculo financeiro"

Desde sempre, os municípios têm suportado apoios sociais aos mais desfavorecidos, que aumentaram com a pandemia e a consequente subida das taxas de desemprego. E há já um ano que todos os autarcas vão tendo a mesma postura: promover a articulação com as diferentes redes sociais de cada município para dar resposta aos casos sociais mais graves. E começa-se pelo que é mais elementar, que é ter comida na mesa, como indica António Pina, presidente da Comunidade Intermunicipal do Algarve e autarca de Olhão.

“As escolas, muitas delas, estão abertas, para que os alunos possam continuar a ter a sua refeição. Há um reforço junto das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), que já têm contratos de reforço alimentar com a Segurança Social. Têm, por exemplo, contratos para 40 ou 50 famílias, mas têm quatro ou cinco vezes mais famílias para ajudar, e claro, pedem às autarquias que os subsidiem para acudir a esta necessidade extra”.

António Pina, presidente da Comunidade Intermunicipal do Algarve e autarca de Olhão.

Para além destas medidas, há um aumento significativo de apoios, como redução das tarifas da água, reforço dos apoios às rendas, o protelamento do pagamento de rendas sociais e os apoios ao comércio.

A situação económica das empresas algarvias também preocupa a Comunidade Intermunicipal do Algarve. E, por isso, António Pina recorda uma promessa feita em junho pelo Governo, quando a Assembleia da República aprovou um Plano de Emergência Social e Económico para o Algarve, que defende medidas extraordinárias, com urgência, para acudir a quem precisa, para impedir a falência de centenas de micro e pequenas empresas, para impedir o agravamento do desemprego e criar novos empregos.

“O Ministro da Economia publicamente referiu que o Algarve precisaria de um programa especial. Até à data esse programa ainda não apareceu. Temos conversado com alguns membros do Governo e esperamos que essas medidas adicionais para o setor do turismo - que não serão necessariamente apenas para a região, mas que para o Algarve têm grande importância, - tenham de surgir”.

Uma das preocupações dos autarcas, com o setor empresarial, é a questão das moratórias. Não basta, segundo António Pina, estendê-las por mais três meses. “Porque quando as empresas abrirem vão precisar do mínimo de tesouraria para continuarem abertas. É preciso dar algum tempo para que ganhem algum músculo financeiro. Porque senão corremos o risco que o desemprego seja ainda maior”.

Hotelaria reclama apoios

A maioria dos grandes grupos hoteleiros do Algarve optou pelo encerramento quase total, deixando apenas um dos hotéis do grupo em funcionamento. E esses têm uma taxa de ocupação de quase zero. Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, admite que há um ano o Governo agiu bem nos apoios à economia, mas partiu de um pressuposto errado: que a pandemia estaria resolvida em poucos meses.

“A crise não só não foi ultrapassada como se agravou ainda mais. O Governo adotou medidas na perspetiva de que haveria uma retoma progressiva, em poucos meses. Obviamente que essas medidas passaram a ser insuficientes, desajustadas e desadequadas, quer para as empresas quer para a atividade turística em geral”.

Praia de Loulé durante o desconfinamento do verão de 2020. Foto: Luís Forra/Lusa

A partir daí, o Governo não tomou as medidas que se justificam para apoiar o tecido empresarial e por essa via, “preparar as empresas para que no período da retoma estejam preparadas para responder eficazmente aos desafios competitivos que se vão verificar, uma vez que o turismo vai ser disputadíssimo no período da retoma”.

Tudo podia ser resolvido caso uma promessa do Governo tivesse sido cumprida. O tal plano específico de emergência, anunciado em junho, para recuperar o turismo do Algarve, “que o senhor primeiro-ministro mais tarde reiterou”, sublinha Elidérico Viegas. O plano não saiu da gaveta porque “não há intenção política de o aprovar, no curto a médio prazo”.

As empresas do setor da hotelaria estão fortemente descapitalizadas, sem apoios financeiros e fiscais consistentes que as ajudem a suportar a falta de receitas. O que levará a uma “catástrofe económica e social na região que terá repercussões num aumento significativo de insolvências e no desemprego”. Uma situação que não é ainda tão grave porque grande parte dos trabalhadores ainda está na situação de “lay-off”.

Praia do Carvoeiro.

Enquanto não se resolver o problema sanitário, dificilmente serão restabelecidos os fluxos turísticos, em especial com o mercado britânico, tradicionalmente o maior fornecedor de turistas. Por isso, a situação será em tudo idêntica à do ano passado.

“Como sabemos, 2020 foi o pior ano turístico de sempre para a região. A retoma, que será naturalmente gradual, só deverá acontecer a partir da Páscoa de 2022. Porque a recuperação total, para os níveis de 2019, só deverá acontecer daqui a quatro ou cinco anos”:

Diversificação da economia

José Vitorino, presidente da AlgFuturo

Se este ano a época de verão for igual ou pior que a do ano passado, em termos económicos, os verões de 2020 e 2021 serão piores em conjunto do que o ano de 2019. Será o descalabro, na opinião de José Vitorino, presidente da AlgFuturo, a União Empresarial do Algarve, que avança com uma solução de recurso, logo que estejam vacinados os prioritários contra a Covid-19:

“Deve ser definida prioridade na vacinação de todos os que estão nas regiões do país em que seja grande o peso do turismo. Tem a ver com a salvaguarda da economia e com a salvaguarda social. Porque nem com contentores de dinheiro se consegue suprir a falta de turistas estrangeiros no verão”.

Antes disso, há que pôr em prática um plano de reconversão económica para a região do Algarve, que depende em mais de 70% do setor do turismo. Um plano que não é uma alternativa ao turismo, porque, segundo José Vitorino, “a força do turismo é avassaladora”. Um plano que assenta noutras bases possíveis para a economia algarvia, como a agricultura, “que está pujante, com as mais modernas técnicas”. Há ainda a área da pesca, das novas tecnologias e, sobretudo, uma área quase totalmente a descoberto, a da energia solar, onde se devia apostar de forma “monumental.”

Na agricultura, a única que poderá ter uma margem de progressão, a curto prazo, José Vitorino dá o exemplo de uma cultura relativamente recente que pode ser uma aposta no Algarve.

“Temos as melhores condições. Agora apareceram os abacates, que são de uma riqueza fantástica. Basta dizer que o abacateiro não tem doenças. É altamente rentável. E se é altamente rentável, é bom para o Algarve e é bom para o país”.

Muito atento aos problemas da região está, há longo tempo, José Apolinário, ex-secretário de Estado das Pescas e antigo membro do Parlamento Europeu, recém-eleito presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.

Plantação intensiva de abacate. Foto: Rafel Marchante/Lusa

Como homem da terra, nascido em Pechão, no concelho de Olhão, admite que se candidatou à CCDR “justamente pela situação económica e social da região” e pelo que perspetivou “sobre as enormes dificuldades que a região vai atravessar com este impacto da pandemia”. Aliás, uma das prioridades do seu mandato é apostar na diversificação da base económica da região:

“Estamos a procurar definir boas políticas para que não dependamos tanto do turismo. Por isso, os 300 milhões de euros para a diversificação da base económica e os 200 milhões para o programa de eficiência hídrica, para nos tornar mais resilientes em matéria de gestão da água, são bons sinais”.

Mas há mais: “um foco no mar e recursos endógenos, nas energias renováveis, na área da saúde e na área das tecnologias de informação. E é nestas áreas que temos vindo a trabalhar propostas para que as empresas possam aceder a meios para a diversificação da base económica da região”.

Entretanto, como desafio imediato, coloca-se a coordenação e articulação com os municípios das intervenções do Estado nas várias áreas setoriais, dinamizar informação para que as empresas possam aceder a apoios do Estado e apresentar propostas de maior resiliência da região.

Ainda assim, a vacinação e evolução positiva da situação pandémica poderá permitir ter um verão em que os turistas estrangeiros e nacionais possam ajudar o Algarve. “E a melhor forma de ajudar o Algarve vai continuar a ser o slogan ‘Faça férias cá dentro’”.

Do mar para a terra

A Marina de Albufeira existia há três anos e os irmãos Bacalhau decidiram investir e mudar de vida. Apostaram no turismo náutico, numa empresa com embarcações que levam turistas a visitar, a partir do mar, as riquezas da costa algarvia.

A frota é de alguma dimensão. “Temos 17 embarcações, entre elas quatro catamarans de grande dimensão, que levam cerca de cem pessoas. As maiores embarcações são todas na ordem de um milhão de euros”, explica João Bacalhau.

O negócio seguia quase em velocidade cruzeiro. “Tivemos sempre crescimento do volume de negócios, normalmente de dois dígitos. Mesmo com a crise económica de 2011, mantivemos sempre a atividade em crescimento. Até 2020”.

Quando o mundo deu conta deste novo coronavírus, João e o irmão ficaram apreensivos.

Ainda antes do primeiro confinamento, suspenderam o negócio. Números redondos, cerca de 50 pessoas faziam parte da empresa. Uma responsabilidade para dois jovens empreendedores, que não tiveram outra alternativa senão aderir aos apoios estatais para manter o negócio à tona de água. Também beneficiaram das moratórias, que atrasaram o pagamento das dívidas à banca. Mas as moratórias estão a acabar e em breve, terão de as suportar – mesmo sem ter o negócio ativo.

Face à situação, e empreendedores que são, decidiram antecipar um projeto que pretendiam desenvolver no futuro: recorrer a uma quinta da família, que há anos que não era mais do que uma despesa, sem benefícios. E começaram a plantar a terra.

Horta da Orada

“Tínhamos mão de obra disponível e os recursos. O turismo para, mas as pessoas têm de continuar a comer”. E a partir daí, foi uma questão de pôr as mãos na massa. Mudaram de rumo e iniciaram um caminho pela agricultura. Não sabiam como plantar e cultivar morangos, cenouras, repolhos e tudo o que hoje produzem. Mas bastou a necessidade e a vontade de o fazer.

“O processo de aprendizagem faz-se em qualquer lado: num livro, no computador, numa universidade. Quando se tem vontade e gosto, rapidamente se aprende qualquer coisa”, garante João Bacalhau, de botas sujas de terra da quinta onde hoje passa a maioria dos dias.

Há batata doce, morangos, laranjas, tangerinas, cenoura, batata, repolhos e muitos mais produtos hortícolas que há quase um ano começou a plantar e a vender, numa loja que tem dentro da propriedade e que está virada para a rua. Este ano está até a pensar contactar grandes superfícies para escoar os seus produtos. As vendas ajudam a suportar algumas despesas e, sobretudo, a ocupar-lhes o tempo. O futuro é incerto.

João Bacalhau, Horta da Orada

“O sol nasce todos os dias a este e põe-se a oeste. Ainda não falhou dia nenhum. E o futuro é isso: estarmos vivos e ir à procura de novas soluções, porque não podemos continuar a olhar para o passado e chorar por isso. Temos de olhar para a vida de forma positiva e perceber que se estamos vivos, temos de agradecer por estarmos vivos. Tudo o resto resolve-se…”

Texto e fotografia: João Cunha

Renascença, março 2021

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João Cunha
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