O Vidente

Ele olhou para ela como se a conhecesse. Como se pudesse intuir seus movimentos, sua alma. Nos seus anos de estudo aprendera a ler os símbolos, as nuances, aprimorando uma mente não só analítica, mas poderosamente intuitiva. As cartas se revestiam das entidades mitológicas que lhe sussurravam as manifestações divinas em astros, planetas, cosmos. Poder o qual ela não poderia acessar; cega em suas previsões, mas crente de uma fé no Universo, depositava nas mãos místicas do adivinho a confiança de uma criança que olha ao pai em busca de certezas: nos percursos ocultos e complexos da vida, diz-me o que há de ser; buscando em suas palavras o dom de antever, desvelando o nó árduo do vir a ser, a inesperada dança dos dias, entre feitos e desfeitos.

Seu gesto ingênuo simula a crença em um poder que nos rege, a negação do acaso que se instaura frente ao imenso desafio de segurar entre as mãos a boca aberta de um leão, enfrentando na solidão de suas escolhas aquele que seria o melhor caminho. Hospeda silenciosa o receio das dores já conhecidas, saturadas nesse embate cotidiano de tentar, errar, adaptar. Como se os olhos do vidente acolhessem o olhar próprio de Deus a nos tomar pelas mãos ou a nos carregar no colo deixando suas pegadas na areia. Esse abandono divino do qual somos órfãos torna-se a crença naqueles que podem nos amparar: religião ou magia.

Mas a crença não vivifica apenas nos ingênuos, ela beija também os arrogantes, se infiltra entre os incrédulos. No toque melindroso das palavras, faz-se do palpite, sacramento; e no encontro de almas, seguimos transformando impressões em ouro, pensamentos em verdades. Como saberia ela as palavras perdidas que não lhe foram ditas? O que ele leu, que a ele somente pertencia? E na obliteração de sua intuição proferiu sentenças nascidas de seus preconceitos, de seus apegos, de suas censuras, de suas escolhas imprecisas, crente de que lia a fortuna divina?

E as palavras penetram a terra fértil, cultivando flores de contentamento ou espinhos de desilusão; num ato interceptado pelas sensações, pontuado de impressões, mediado pela palavra, para finalizar-se em sentença. Cada qual crente de alguma verdade, seja ela qual for.

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Izis Cavalcanti
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Credits:

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