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JERUSALÉM: DIVINA ATÉ PARA OS SEM-DEUS

Sequência da série de fotos e textos que produzi durante viagem a Israel, patrocinada pelo Consulado Geral de Israel em São Paulo. No fim da página tem um link para outros materiais, especialmente sobre Tel Aviv.

Jerusalém é de arrepiar, mesmo para quem vai sem qualquer motivação religiosa. Fato. Dá para sentir no ar e ver nas pedras gastas das paredes e do chão o tanto de treta que já rolou por ali.

Os famosos Western Wall (Muro das Lamentações) e Dome Of The Rock (Cúpula da Rocha) de fato impressionam. Se der sorte e for durante a semana em período fora de férias ou datas especiais escapará dos turistas e poderá aproveitar com mais tranquilidade cada lugar. Mas confesso que, vistos os dois monumentos mundialmente famosos, se perder pelas vielas da cidade velha de Jerusalém supera qualquer vista que possa haver do Muro das Lamentações e do cocuruto dourado.

As muralhas abrigam uma diversidade cultural, étnica e religiosa incríveis. Há o bairro dos cristãos, dos muçulmanos, dos judeus e dos armênios. Atravessar a parte dos judeus foi ver ruelas residenciais floridas, com muitas crianças indo ou voltando da escola. De repente, do nada, como se um portal fizesse o papel de fronteira invisível, a paisagem muda e surge um comércio frenético espalhado por um grande mercado de roupas coloridas, comidas árabes, cafés turcos, uma mistura estonteante e inesquecível.

Quem já foi ao Marrocos perceberá alguma semelhança no fervor das lojas e seus vendedores. Uma olhadinha pro lado e o caboclo dispara a oferecer seus produtos. Mas nem todos. Há uns mais reservados, para não dizer completamente alheios aos turistas.

O cheiro de comida convida a experimentar as iguarias típicas e dificilmente há arrependimento—só se for de tanto comer. No final de uma ruela, quase chegando à famosa cúpula dourada, um homem oferece café turco. Fica eufórico ao descobrir a brasilidade do cliente em potencial. "Vocês entendem tudo de café! Precisam provar o meu!", gesticula com os braços abertos.

Antes de servir o cafezinho (quatro Shekels, cerca de R$ 3,70) o homem faz propaganda do produto. "O meu café tem macadâmia, o de vocês tem?", pergunta. "Como não! Vocês vão amar meu café". Sem dúvida estava muito bom depois do terceiro gole, o necessário para o meu paladar se acostumar com a brutalidade do sabor.

O muro e suas lamentações
CONSTRUIR PONTES, DESTRUIR MUROS

No início da série disse que viajar é construir. Penso assim porque ao visitar um lugar pela primeira vez construimos relações, observamos outros costumes, vivenciamos culturas, exercitamos o novo. Este é um aprendizado de construção. Certamente Israel me proporcionou isso e mais um pouco: uma desconstrução, para mim e para o meu círculo de amizades.

É que muitas pessoas próximas se preocuparam com minha viagem de um jeito atípico. Descobri que na percepção delas eu estava no meio do deserto, todo suado, chamando camelo de Uber, escondendo de picapes brancas com metralhadoras e desviando de morteiro. Pois te digo que isso equivale ao nosso “tem macaco atrás de banana na avenida Paulista”. Me desloquei em trens iguaizinhos aos da Europa, em ônibus modernos, táxi Mercedes top de linha, caminhei como correu Forrest Gump.

Israel dá medo? Em mim, nem um pouco. Experimentei diferentes regiões, em diferentes horários e em nenhuma me senti ameaçado. Pelo menos em relação às ameaças cotidianas que enfrento no Brasil. Em Recife, por exemplo, recentemente fui desaconselhado a caminhar pela praia, mesmo sendo de dia. Homem, branco, brasileiro, de dia. Rio e São Paulo então, pfff. Ah, mas em Israel tem risco de atentados, guerras e afins. De fato. Talvez a invisibilidade dessa iminência (um tanto contida ultimamente) deve ser a responsável pela percepção de lugar seguro neste quesito.

Tanto que eu voltaria facilmente. Aliás, gostaria muito. Tenho algumas ideias na cabeça que podem virar projeto fotográfico. Tel-Aviv parece uma mistura de São Paulo com Rio de Janeiro que deu certo. A culinária espetacular me faz salivar só de lembrar (Shakshuka I miss you). As pessoas tem um carinho enorme por brasileiros. Há segurança urbana. Muita gente bonita. Os papos são bons. Te falar que gostaria de conhecer regiões menos atraentes turisticamente, como Gaza.

Sim, existe toda uma questão importantíssima relacionada a conflitos envolvendo terra, religião, posse. Mas não me sinto letrado o suficiente para discorrer a respeito e muito menos opinar. Minha viagem nem teve esse propósito. Gostaria simplesmente que toda a região—e aqui me refiro não só a Israel—encontrasse um ponto de equilíbrio, capaz de satisfazer da melhor forma possível os povos envolvidos no que parece ser uma disputa infinita. Estamos falando de pessoas seguindo ou tentando seguir suas vidas. Seria incrível se as disputas dessem espaço para acordos satisfatórios e duradouros.

Minha viagem permitiu um pequeno recorte de uma imensidão de informação visual que encontrei em Israel e contribuem para a principal intenção deste projeto: construir pontes entre Brasil e Israel. Afinal, de muros o mundo está saturado.

Credits:

Agê Barros

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