Cinema francês rende- se ao humor Comédias são recordistas de bilheteria

No último ano, dos dez filmes nacionais que mais atraíram público aos cinemas, simplesmente nove foram comédias, um predomínio quase absoluto de um gênero. Só que isso não aconteceu no Brasil. Em 2014, foi a França que viu as comédias se sobressaírem perante uma produção de cerca de 260 longas-metragens, alguns desses os velhos dramas de autor que fizeram a fama do cinema francês.

O bom resultado das comédias frente ao público francês é ainda maior do que no Brasil, onde dos dez filmes de maior bilheteria no ano passado, oito foram de tom cômico. Em comum, tanto lá quanto aqui, o desequilíbrio de gênero é razão para debates entre críticos e piadas entre cinéfilos mais radicais. Mas, por outro lado, o sucesso das comédias francesas representa, para diretores e produtores, uma etapa mais madura da segunda cinematografia mais popular do planeta.

Omar Cy é o enfermeiro Driss em " Intocáveis": filme é baseado em história real

— Há uma nostalgia em relação à Nouvelle Vague, mas o cinema precisa se renovar. Antigamente, se você fizesse muito público na França, as pessoas já desconfiavam. Isso está mudando — diz Eric Toledano, codiretor junto a Olivier Nakache de “Os intocáveis”, comédia dramática que atraiu quase 20 milhões de franceses aos cinemas entre 2011 e 2012. — Então avalio que estamos num novo período, um que permite misturarmos tudo.

Toledano e Nakache chegam hoje a São Paulo, para a abertura do Festival Varilux de Cinema Francês , mostra que vai percorrer 50 cidades brasileiras (no Rio, a programação começa amanhã e terá 13 espaços de exibição). Quinze dos 16 longas-metragens exibidos pelo Varilux são inéditos no Brasil, e 12 deles são comédias. Os diretores de “Os intocáveis”, por exemplo, vão apresentar sua nova produção, “Samba”, mais uma comédia dramática e novamente estrelada por Omar Sy.

Com uma trama que reúne humor, os problemas de imigração na Europa e um romance entre uma francesa (Charlotte Gainsbourg) e um senagalês (Sy), “Samba” foi o quinto filme francês mais visto do ano passado.

SAMBA

Interpretado por Omar Cy, que fez sucesso com o filme Intocáveis, Samba é um imigrante ilegal que vive há dez anos na França. Desde então, ele tem se mantido no país em empregos temporários. Ele mora no subúrbio de Paris com o tio, um senegalês que conseguiu o visto de residente e trabalha num restaurante de luxo. Um dia Samba é preso por falta de documentos e é então que conhece Alice, personagem vivida por Charlotte Gainsbourg. Para quem não está ligando o nome à pessoa, Charlotte é a protagonista de "Ninfomaníaca". E, sim, é filha do ator, compositor e cantor francês Serge Gainsbourg.

Há uma nostalgia em relação à Nouvelle Vague, mas o cinema francês precisa se renovar

NA PRISÃO

Quando encontra Samba, Alice está temporariamente afastada de seu emprego por estresse. Executiva bem-sucedida, ela agora faz trabalho voluntário em uma ONG que presta assistência jurídica aos necessitados. Numa ida a um presídio, tem seu primeiro encontro com Samba. A partir daí, os dois começam a se relacionar e dividem suas fragilidades e pontos em comum. Enquanto Samba tenta encontrar um emprego digno, Alice receia o retorno ao seu. Ela faz terapia para tentar recuperar a calma e a confiança.

Tínhamos um certo temor do que aconteceria depois do sucesso de "Intocáveis". Mas no fim tivemos mais de três milhões de espectadores com "Samba"

REFERÊNCIA AO BRASIL

Já solto, Samba conhece Wilson, interpretado por Tahar Rahim. Ele é um suposto brasileiro que lhe arranja diversos bicos. As cenas protagonizadas pelos dois garantem boas doses de humor ao filme. Rahim, juntamente com o diretor do filme, Éric Toledano, esteve recentemente no Brasil para divulgar o filme, durante o Festival Varilux de Cinema. Rahim disse que chegou a ter aulas de samba para viver o personagem.

Aprendi a sambar, mas vocês sambam melhor do que eu
Fazemos filmes para que os espectadores esqueçam seus problemas e saiam da sala com novos assuntos para debater. É possível fazer um cinema popular sem perder o lado artístico

— Tínhamos um certo temor do que aconteceria depois do sucesso de “Os intocáveis”. Mas acabou que tivemos mais de 3 milhões de ingressos vendidos na França e também recebemos boas críticas — explica Toledano. — Nós e outros diretores franceses fazemos filmes para que os espectadores esqueçam seus problemas e saiam da sala com novos assuntos sobre os quais debater. É possível fazer um cinema popular sem perder o lado artístico.

Celebrado desde a geração de Godard, Truffaut e outros cineastas da Nouvelle Vague, o cinema francês ganhou um novo rumo entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990. O público parecia estar se cansando dos velhos filmes de autor, e a brincadeira mais recorrente era que toda produção francesa tratava do mesmo assunto: um casal em processo de separação. Para muitos, era necessário dar um passo diante.

Godard e Truffaut: expoentes da Nouvelle Vague 

Essa crise de representação, portanto, gerou uma reação de uma parcela do mercado que entendia a necessidade de se fortalecer e diversificar o cinema nacional. Uma das etapas mais importantes desse processo foi a promulgação de leis que criaram cotas para a exibição de filmes franceses nas televisões e que também obrigaram as emissoras a investir na produção de cinema.

Com a proximidade com a TV, buscou-se uma linguagem mais popular nos filmes, afirma Christian Boudier, diretor do Varilux

O mercado francês também passou a investir mais na elaboração de roteiros. Antes, fazer um filme de ação na França era uma vergonha. Mas surgiram diretores, como Luc Besson, para fazer filmes de gênero. Pouco a pouco os cineastas começaram a achar normal trabalhar com roteiristas, deixando para trás a ideia do “autor”.

Hoje, dentro da programação das TVs francesas, pelo menos 60% dos filmes exibidos devem, por lei, ser originado na Europa, e 40% devem ser falado em francês. Além disso, os canais de TV que exibem filmes são obrigados a investir 3,2% de sua receita anual na produção de obras europeias e 2,4% nas francesas. Naturalmente esses filmes já nascem com um contrato de exibição para a TV e têm seu público expandido.

— É claro que existe e sempre existiu algum tipo de inveja entre aqueles que fazem comédias mainstream e os que não fazem. O primeiro grupo gostaria de ter o reconhecimento crítico e o status que o segundo grupo tem. Já o segundo adoraria ter os números de bilheteria do primeiro — avalia Anne Fontaine, diretora de “Gemma Bovery”, comédia dramática que está na programação do Varilux. — Mas acho essa discussão perda de tempo. Eu só tento fazer filmes em que minha equipe se sinta feliz e sem que os produtores vão à falência. São filmes que não vão atrair um público gigante pelo mundo, mas serão vistos por alguns milhões nos cinemas e dezenas de milhões quando forem exibidos na TV. É um resultado maior do que outras expressões culturais conseguem.

A VIDA IMITA A ARTE

Este não por acaso é o subtítulo do filme Gemma Bovery. Martin é um apaixonado pela obra de Flaubert. O seu fascínio pelo livro "Madame Bovary" vem à tona quando conhece Gemma e Charles Bovery, cujos comportamentos e personalidades são uma réplica dos personagens do livro. Martin encontra-se entre a ficção e a realidade onde a obra se desenrola perante os seus olhos. A trama se passa numa pequena cidade da Normandia.

Tento fazer filmes em que minha equipe se sinta feliz e sem que os produtores vão à falência

PARALELO COM A LITERATURA

Gemma é recém-chegada a uma pequena cidade francesa para onde se mudou com o marido. Ela passa os dias entediada até que conhece Martin, um ex-editor em Paris e agora padeiro no vilarejo. Martin fica totalmente encantado com a beleza e o jeito de Gemma e começa a fazer paralelos entre a vida do casal e a obra-prima de Flaubert, do século XIX.

Sempre existiu algum tipo de inveja entre aqueles que fazem comédias mainstream e os que não fazem. O primeiro grupo gostaria de ter o reconhecimento crítico do segundo. Já o segundo adoraria ter a bilheteria do primeiro

NÃO É MERA COINCIDÊNCIA

O comportamento de alguns personagens, assim como o nome de Gemma Bovery foram inspirados no livro " Madame Bovary", de Flaubert.

Gemma Arterton vai estrelar o thriller psicológico The Voices, da quadrinista e diretora Marjane Satrapi

Além de “Gemma Bovery” e “Samba”, o Varilux vai exibir obras como a comédia em animação “Asterix e o domínio dos deuses”, a comédia romântica “Sexo, amor e terapia”, e outra, mais escrachada, “Que mal eu fiz a Deus?”, grande campeã de bilheteria de 2014 na França, com 12,3 milhões de ingressos vendidos.

outros destaques do Festival de Cinema Francês: " Oque as mulheres querem", "Sobre amigos, amor e vinho" e "Papa ou Maman"

Os defensores das comédias francesas lembram, ainda, que seu sucesso recente vem ajudando a combater a usual hegemonia de Hollywood. No ano passado, os filmes nacionais representaram 44% dos acessos aos cinemas franceses, enquanto que as produções americanas ficaram com 45,1%. Como comparação, em 2014 o market share do filme nacional foi de apenas 12,4% no Brasil.

— Assim como no Brasil, na França há quem reclame das comédias. E é verdade que alguns filmes não são bem trabalhados. Mas às vezes a gente se esquece que o gênero é um dos mais difíceis de chegar ao sucesso — afirma Jean Paul Salomé, presidente da Unifrance, agência para promoção do cinema francês. — E temos autores de comédias que souberam reinventar o gênero, como Eric Lartigau com “A família Bélier” (2014). Agora, é preciso ter cuidado para não produzirmos apenas comédias. Nosso cinema teria um desequilíbrio e o público iria se cansar.

Created By
Adriana barsotti
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